A pergunta de Arthur pairou no ar escuro do quarto do hospital, tão surreal que Clara pensou que poderia estar sonhando. Ela o encarou, tentando decifrar a expressão em seu rosto. Não havia zombaria, nem armadilha. Apenas uma confusão genuína.
Uma memória, uma imagem de uma garota assustada em uma noite de tempestade e um garoto gentil com olhos tristes, brilhou e se apagou em sua mente. Uma dor antiga, que ela havia enterrado fundo, ameaçou vir à tona. Ela a empurrou para baixo. Abrir essa porta não levaria a nada além de mais sofrimento.
—Não. — ela mentiu, a voz firme. — A primeira vez que te vi foi no jantar de noivado que nossas famílias arranjaram.
Ele pareceu aceitar a resposta, mas um vinco de dúvida permaneceu em sua testa.
Ele se moveu, diminuindo o pequeno espaço entre eles na cama apertada. Sua mão se ergueu e, com uma hesitação que ela nunca tinha visto nele, ele tocou o curativo em sua testa. O toque foi incrivelmente leve. Seus dedos traçaram a borda do ferimento, e um arrepio percorreu o corpo de Clara.
Era um toque sem raiva, sem posse. Era... quase gentil.
Seu corpo, faminto por qualquer forma de conforto, traiu-a. Ela se inclinou para o toque dele, os olhos se fechando por um instante. Ele entendeu o movimento como um convite. Sua mão deslizou de sua testa para sua bochecha, o polegar acariciando a pele macia abaixo de seu olho.
Ele se inclinou, e ela soube que ele a beijaria. E a parte mais assustadora foi que, por um segundo, ela o desejou. Desejou o calor, o esquecimento, mesmo que fosse uma mentira.

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