O mundo de Clara se tornou um borrão de dor, vozes abafadas e o cheiro de antisséptico. Ela foi levada às pressas para a oftalmologia, seus olhos lavados com solução salina por quase uma hora. A dor diminuiu para uma queimação constante, mas sua visão permaneceu embaçada, hipersensível à luz. Ela foi internada para observação.
A Sra. Fátima, a babá, foi a única visita que ela recebeu. A mulher mais velha a ajudou a comer, o rosto cheio de uma preocupação silenciosa.
—A senhora quer que eu avise o Sr. Montenegro? — perguntou ela, suavemente.
—Não. — a resposta de Clara foi firme, apesar da dor. — Não o incomode, Sra. Fátima. Por favor.
Ela não queria a pena dele. Não queria a raiva dele. Não queria nada dele.
No dia seguinte, a porta de seu quarto se abriu sem aviso. O cheiro de um perfume caro e familiar precedeu a visitante.
Isabela Ferraz entrou, usando um vestido novo e carregando uma bolsa de couro de crocodilo que Clara reconheceu das revistas de moda.
—Vim ver como a paciente mais famosa do hospital está. — disse Isabela, com um sorriso doce e venenoso. Ela colocou a bolsa sobre a mesinha de cabeceira. — Gostou? O Arthur me deu de presente ontem. Um pequeno pedido de desculpas por todo o estresse que você tem causado. Custou quinhentos e sessenta mil reais.
Ela se sentou na beirada da cama, o olhar percorrendo o rosto pálido e os olhos inchados de Clara.
—É uma pena o que aconteceu com você. Mas, honestamente, o que você esperava? Quando você provoca as pessoas, elas reagem.
Clara permaneceu em silêncio, o rosto virado para a janela.

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