A humilhação seguinte foi ainda mais profunda. Um memorando oficial, afixado no quadro de avisos do andar cirúrgico para que todos vissem, anunciava sua nova função. "Com efeito imediato, a Dra. Clara Mendes será transferida de suas funções no departamento de neurocirurgia para o pronto-socorro, onde auxiliará nas necessidades gerais do setor."
De uma das melhores neurocirurgiãs do país a uma médica genérica no caos do pronto-socorro. Era um rebaixamento calculado para quebrar seu espírito.
Na tarde seguinte, enquanto Clara suturava um corte na testa de uma criança chorando, uma comoção tomou conta do pronto-socorro. Uma maca passou correndo, cercada por uma equipe em pânico.
—É o Dr. Ricardo! Ele desmaiou na sala de cirurgia! Exaustão!
Clara sentiu um nó no estômago. Ricardo era seu colega mais próximo na neurocirurgia.
Minutos depois, a jovem enfermeira assistente de Ricardo, Joana, desceu correndo, os olhos vermelhos de choro e raiva. Ela parou na frente de Clara, o corpo tremendo.
—É sua culpa! — ela gritou, a voz ecoando pelo pronto-socorro. Todos os olhares se viraram para elas. — O Dr. Ricardo está fazendo turnos de dezoito horas, cobrindo todas as suas cirurgias desde que você... abandonou seu posto! Ele desmaiou por sua causa!
A acusação era brutal. As palavras "abandonou seu posto" foram a deixa. Como se tivessem sido convocados, Dr. Farias e Isabela apareceram.
—É o que eu venho dizendo. — disse Dr. Farias, com uma falsa gravidade, balançando a cabeça. — A Dra. Mendes tem se mostrado irresponsável, negligenciando seus deveres para com este hospital e seus pacientes.

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