Os meses que se seguiram foram uma névoa de silêncio e recuperação.
Arthur Montenegro flutuou em um mar de escuridão, pontuado por flashes de luz e vozes abafadas. Ele ouvia uma voz, em particular. Uma voz calma e suave que lia para ele, às vezes notícias de negócios, às vezes poesia, às vezes apenas descrevia o tempo lá fora.
Essa voz era sua âncora. Sua única certeza.
Quando ele finalmente abriu os olhos e a consciência retornou de verdade, a primeira coisa que viu foi ela.
Clara.
Ela estava sentada em uma poltrona ao lado de sua cama, a luz do sol da tarde iluminando seu rosto. Havia uma serenidade nela que ele não se lembrava de ter visto antes.
— Clara... — ele sussurrou, a garganta seca e áspera.
Ela ergueu os olhos do livro, e a expressão dela era de uma calma e educada distância.
— Você acordou. Vou chamar o médico.
— Não. Espere. — ele disse, tentando se sentar, mas uma dor aguda o atravessou.
A memória dele era um quebra-cabeça com peças faltando. Ele se lembrava do acidente. Lembrava-se de jogar seu carro na frente do dela.
Ele se lembrava de amá-la. Uma obsessão, uma necessidade que o consumia. Ele se lembrava de querer protegê-la.

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