Arthur recebeu a notícia por telefone, de um Delegado Silva com a voz grave.
Não foi um relatório. Foi a cronologia de uma tragédia.
Ele ouviu sobre a briga no café. Ouviu sobre a queda de Enzo. Ouviu sobre o ataque cardíaco de Geraldo Mendes.
E ouviu a parte mais crucial. A gravação do áudio da chamada de emergência, onde a primeira ambulância foi explicitamente instruída a ignorar o homem mais velho. Por ordem dele.
O telefone escorregou de sua mão.
A verdade o atingiu. Ele não havia apenas cometido um erro. Ele havia sido o instrumento da morte de um homem.
A culpa, um sentimento que ele sempre conseguiu reprimir ou comprar, o afogou. Era um monstro de garras frias apertando seu peito, roubando seu ar.
Ele dirigiu para casa, um autômato. Ele precisava vê-la. Precisava... ele não sabia o que precisava.
Quando Clara entrou no apartamento, horas depois do funeral, ela o encontrou sentado na sala de estar escura.
Ela parou, o corpo enrijecendo.
Ele se levantou. — Clara, eu... eu sinto muito.
A voz dele, o rosto dele, o mero fato de sua existência naquele espaço, foi a faísca que incendiou o barril de pólvora de sua dor.

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