Capítulo 171
Derrick
A escada rangia baixo, como se cada passo guardasse a respiração de quem estava em cima. Desci ao lado da Rúbia com as mãos calmas, mas a cabeça queimando — não de medo, não só — era uma mistura de adrenalina e de uma coisa mais antiga: saber que, em qualquer momento, uma palavra errada pode virar pólvora. Na sala, homens que eu conhecia perfeitamente, alinhados, olhos que pesavam como lâminas, e Luca no centro, maior do que a própria sombra.
Ele estava parado, o casaco aberto — e o corpo inteiro em modo de pergunta. Chegou perto com passos curtos, aquele andar de homem acostumado a que o mundo responda às ordens. Ficou na minha frente. Os soldados recuaram dois passos só pela inclinação da nuca dele. Havia uma paciência afiada no olhar.
— Que porra você fez, Derrick? — a voz saiu em corte. Não era só raiva: era decepção. — Sabia perfeitamente da minha ordem e que na minha casa, ninguém tira ninguém sem autorização.
Minha boca secou por um segundo. O que veio depois saiu automático, por instinto: não pra me proteger do soco, mas pra segurar a tempestade que eu sabia que vinha.
— Eu sei, chefe — falei, controlando o som pra não falhar. — Quero me desculpar. Sei que fiz errado e eu, no mínimo, deveria ter avisado que estava tirando a Rúbia da sua casa. Mas acontece que não me arrependo. Sinto muito.
Houve um silêncio que verteu frio. Luca arqueou uma sobrancelha, como quem procura a contradição no meu rosto.
— Como assim não se arrepende? — ele perguntou, e a pergunta foi projétil.
— Eu queria tirar e tirei. Ela é minha mulher. Sou homem, porra. Preciso seguir minha vida. Estou disposto a aceitar a punição. Sem problemas.
Senti a mandíbula tremer. Meu peito batia forte porque eu sabia o que poderia vir. Luca fez um movimento lento até a cintura. Quando a mão dele tocou no coldre, o som metálico do gatilho ecoou: ele iria atirar.
Nesse momento, a Rúbia desceu as escadas. Ela deslizou pela última dobra do corrimão como quem atravessa a própria coragem. Parou, as mãos brancas nos balaústres. O rosto dela dizia claramente que estava com medo, mas parecia determinada a alguma coisa.
— Pare, Don! Por favor, pare! — ela gritou, e a palavra dela cortou o silêncio como faca.
Luca virou-se para ela, a arma ainda na mão. O corpo dele estava tenso, olhos que pesavam as mentiras. Ele sabia o que queria expor e eu sabia que ele sabia. Senti o estômago contrair.
— Só estou te protegendo, Rúbia — respondeu Luca, a voz agora baixa, perigosa. — Inclusive, se quiserem voltar pra casa, traz a menina e entra no carro com a Riley.
Rúbia estreitou os olhos, e a palavra dela saiu curta, reta.
— Não, senhor. Eu vou ficar. Derrick não cometeu nenhum crime. O senhor disse que eu só sairia de lá por vontade própria, e foi isso que aconteceu.
Luca inclinou a cabeça, olhando pra ela como se avaliasse um tabuleiro. Sei que ele deve ter visto as câmeras da casa dele. Minha garganta apertou — câmeras que provavelmente registraram cada gesto da madrugada, cada passo do sequestro do meu próprio coração. Então tentei tirar Rúbia de cena:
— Meu anjo, vai verificar se a Mia está bem. Eu cuido disso. — Olhei novamente para o chefe —Pode escolher onde será o tiro, chefe — falei, e as palavras saíram duplas: desafio e oferta. Eu empurrei meu peito para frente, oferecendo o corpo no lugar da palavra.
Rúbia, num gesto que me cortou a alma de orgulho, apontou para mim e respondeu alto, raspando a voz com firmeza:
— Derrick você está louco? Eu quis vir, esqueceu? Quis estar aqui. Então não há crime. Pronto. — Virou pra ele — Senhor Luca, eu agradeço por me ajudar, mas não posso permitir que Derrick se machuque.
Luca me olhou com aquela espécie de alegria sádica que somente um homem acostumado a medidas drásticas tem. Ele passeou o olhar no rosto dela, buscou inconsistências, e eu vi o momento em que a ficha caiu: o rosto da Rúbia perdeu cor. As mãos dela tremiam.
— Você sabe que na minha casa tem câmeras por tudo, não sabe, Rúbia? — ele perguntou, e a voz parecia mastigar a verdade.
Houve uma pausa que quase cedeu em gargalhada. Luca soltou o som, um riso que deu calor e frio ao mesmo tempo.
— É mais abafa. Sou o chefe. — E, com esse comentário, virou-se e saiu. As portas cerraram atrás dele como se um capítulo tivesse sido concluído.
Fiquei ali, o corpo esquentando por dentro, a Rúbia ao meu lado com a respiração treinada de quem resistiu a um incêndio. Os soldados voltaram ao silêncio, as sombras amansaram, e eu senti o chão voltando a existir sob os pés: não ileso, mas firme.
— Você não era assim. Está ficando ousada.
— Não te deixaria sozinho nessa. Sei que ele atiraria só por desobedecer.
Peguei a mão dela. Senti os dedos finos se entrelaçarem nos meus como cola. A punição vinha, mas não como castigo era real.
Sabia que havia vencido o que importava. Havia uma vida pequena dormindo no quarto ao lado, e o resto, os medos, as ordens, iam se ajeitando como peças de um jogo que eu estava disposto a aprender a jogar — de um jeito novo, mais sujo talvez, mas com ela do meu lado.
— O que vai querer querida? — perguntei pra ela.
— Como assim?
— O chefe disse que eu faria o que você quisesse... — o olhar dela mudou.
— Hm. Vou começar a pensar nisso.

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