Capítulo 165
Derrick
Acordo no susto — o quarto parece pequeno demais ao redor do meu peito que b**e rápido, como se um punho apertasse. A luz da rua vaza pela persiana. Ouço um som sutil, o sopro da respiração de alguém que tenta se colocar inteira no mundo de novo. Olho pro sofá. Rúbia está enrolada num cobertor fino, do jeito que ela fica quando decide se afastar: imóvel, com cara de quem prefere dormir num lugar errado a admitir que ainda quer ficar perto.
Porra. Ela deitou no sofá desconfortável só pra não ficar perto de mim? Isso já foi longe demais.
Levanto sem pensar. O corpo me responde antes da cabeça — um estalo de raiva e de cuidado misturados, coisa irritante que não me deixa decidir direito. Afasto a Mia um pouco com as mãos firmes, mas cuidadosas, sentindo o calor pequeno contra meu peito. Ela abre os olhos sonolentos e me dá um sorriso torto, bochechas de quem sonhou com alguma festa. Encosto a menina mais no meio da cama e bato de leve com a mão no seu quadril até ela voltar a dormir. Então levanto.
Coloco Rúbia na cama e cubro direito.
Ela resiste um pouco, mas acaba dormindo de novo.
Não quero mais isso. Preciso dela num lugar que faça sentido pra mim: na nossa casa. Nossa cama, nosso cobertor, nossa filha entre nós.
Toco o cabelo de Rúbia e por um segundo tudo enfraquece: a raiva, a dúvida, as noites de merda. Só que a merda volta rápido — lembranças das acusações, do papel, daquela humilhação enfiada no meu peito. Não admiti nada que não fosse obediência desde que aprendi a ser homem. Não vou engolir ficar de fora da minha casa e ela vivendo separada de mim.
Olho o relógio na estante: cinco da manhã. Suspirei. Levanto, pego uma camisa e desço pra sala.
O Don já está de pé, camisa ainda alinhada, aquele andar que manda até no ar.
— Derrick, dormiu aqui? — ele pergunta direto.
— É, fiquei no quarto com a Rúbia.
— Bom, estou indo viajar. Cuida de tudo. Dê prioridade para a Amercana que tem carregamentos pendentes.
— Tá. Pode ficar tranquilo.
O Don olha por um instante pra mim.
— Então a senhora Black também vai? — pergunto
— Sim, vou cuidar da segurança dela. — responde.
Ajudo com uma mala pequena, verifico as alças, ajeito um casaco que pode servir pra senhora Riley se ela reclamar do frio. Depois me sento no monitor das câmeras. Visto o fone, passo pelos ângulos: portão, garagem, entrada de serviço. Confiro as rotas de saída, ajusto pontos cegos. Subo as escadas devagar.
Volto para o quarto. Rúbia está dormindo. Tomo uma decisão.
Pego o telefone. Ligo pra minha casa.
— Greting? — digo, voz seca. — Viu, organiza bem a casa que vou levar a Rúbia e a Mia pra aí.
— Sim senhor. Fico feliz que as coisas já estão certas entre vocês — ela responde com aquele tom de quem tenta ser cuidadosa.
— É, mais ou menos. E faz o favor de ficar calada e não dizer nenhuma merda pra ela.
No mesmo instante, a voz atrás de mim corta a sala como lâmina.
— O que? Não acredito que estava falando com aquela mulher. E ainda tem a cara de pau de pedir que ela não me conte o que fizeram.
Ela está sentada, os olhos cheios de sono e raiva, a confiança como uma lâmina afiada. Levo um susto — porque achava que ela ia acordar depois, porque não contei, porque talvez eu não devesse ter feito aquilo por telefone. Desligo na hora.
— É justamente porque não aconteceu nada entre eu e ela. Não quero confusão. Já tivemos o suficiente. — Minha voz tenta ser calma, mas há carga demais nela.
— Eu não vou voltar pra aquela casa. Você nem me perguntou e já foi decidindo? E por que ligou pra aquela mulher pra falar isso? — Ela levanta rápido, o corpo inteiro em alerta.
— Calma. Você tá sempre na defensiva. — E eu digo, tentando respirar.
— Dá pra falar baixo? A Mia está dormindo. — Ela sussurra, mas o tom é ríspido.
A paciência corta.
— Eu sei. É que você está me deixando louco.
Seguro o braço dela com firmeza. Nem penso em machucar — penso em arrancar a dureza que a separa de mim. Então a levo pra fora do quarto.
— Eu disse que cansei de esperar. Você está casada comigo. É minha. Então chega.
— O que?
Sem mais conversa, agarro-a pela cintura e a jogo nas minhas costas como se fosse um saco de viagem. Ela solta um grito, b**e, chuta. Os soldados riem — risadinhas duras que me cortam e me dão coragem de não me envergonhar. Ela b**e até perder o fôlego.
Eu a enfio no carro. Tranco a porta. Pronto.
— Me deixa descer. Você é louco.
— Vai acordar ela se continuar gritando. — digo num sussurro firme.
— Mas o chefe disse que você não poderia me levar se eu não quisesse. — ela solta entre dentes.
— Isso é um problema meu. — respondo, frio.
Arranco com o carro. O motor ruge e eu sinto a cidade se afastar. Rúbia cospe palavras enquanto segura a alça do assento.
— Ele vai te punir. Pode ter certeza.
— Eu aguento. Só não aguento ficar sem vocês. — Digo. Não é bravata. É promessa e ameaça ao mesmo tempo. Não suporto a ideia de perder a Mia, de perder ela por uma birra que vira muralha.
— Você é louco. Está me roubando do chefe, sabia? — ela bufa, ofegante.
— Se a senhora Black ouve uma frase dessa pode interpretar mal. — respondo, tentando provocar e proteger. — Você vai voltar pra casa sim. Se vai ficar emburrada e fazer drama que faça, pelo menos estará perto e poderei cuidar das duas.
Ela me olha com ódio e com algo que talvez seja medo. A cidade passa em flashes pela janela. A raiva, a culpa, o amor — tudo se mistura num nó que eu não sei desatar. Talvez eu esteja errado. Talvez eu esteja certo. Só sei que, por enquanto, não consigo mais esperar. Quero a minha família onde eu possa ver, tocar, consertar.
— Seu ogro. Você é um ogro.
Ela grita mais uma vez, e eu arranco — pela rua, pela estrada, pelo que resta da paciência humana. Enquanto o carro some na neblina das primeiras horas, penso que punição ou perdão, seja qual for o veredicto do Don, eu decidi: não vou perder isso. Nem agora, nem nunca.

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