Capítulo 152
Rúbia
Por um instante, tudo o que eu conseguia ouvir era o som do meu próprio coração — rápido, desesperado, tentando não quebrar dentro do peito.
Derrick ainda estava ali, na porta. O olhar dele queimava, e a toalha pendia torta na cintura, como se até isso fosse um detalhe que ele esqueceu por causa da raiva.
Eu não sabia o que responder:
— Só pode ser um milagre... — murmurei, com a voz trêmula. — Derrick, eu juro.
Ele soltou um riso curto e frio.
— Milagre? Que palhaçada é essa, Rúbia? — o tom dele era ácido, carregado de descrença. — Quer que eu acredite em milagre agora?
— Derrick, não debocha, por favor — pedi, tentando manter a calma, mas a voz já embargava. — Você vai me deixar magoada. Eu também não faço ideia de como isso aconteceu, tá? Eu estou tentando entender, tentando não surtar... Então colabora.
Ele deu um passo pra frente, o olhar duro, quase clínico, como se analisasse um inimigo.
— Rúbia. Você me traiu?
Senti o chão sumir. Não é a primeira vez que ele supõe isso.
— O quê? — sussurrei, atônita. — Ficou louco?
— Eu tenho exames, porra! — ele gritou, a voz reverberando nas paredes. — Tenho provas de que nunca poderia ser pai. Nunca! — balançou o papel no ar, o olhar inflamado. — E agora você aparece grávida. Quer que eu acredite em quê? Em sorte divina? Não me venha me pedir pra acreditar na sua invenção.
Dei um passo pra trás, o coração descompassado.
— Derrick... eu não traí você!
— Então o quê? Já estava grávida quando aceitou se casar comigo? — ele avançou, a voz mais baixa, mas cortante. — Claro. O filho é do seu ex. Aquele idiota que eu devia ter matado quando tive chance. Você acha que eu sou idiota? — continuou. — Que eu vou aceitar isso sem questionar?
— Para com isso! Eu não te traí — disse, firme, embora a voz tremesse. — Eu não teria coragem de te enganar assim. Esse filho é seu — gritei, sentindo as lágrimas virem. — Você está me machucando.
— Machucando? — ele riu, mas o riso não tinha alegria. — Eu tô tentando entender, Rúbia! Eu confiei em você, caralho!
As mãos dele foram pros seus cabelos, puxando com força. O corpo inteiro dele tremia — de raiva, de incredulidade, talvez dos dois.
Eu dei um passo em direção a ele, mas ele ergueu a mão num gesto firme.
— Não ouse se aproximar.
Parecia outra pessoa.
Os olhos dele, antes tão gentis quando seguravam Mia, agora eram puro fogo contido.
— Eu vou ter esse filho. — falei, a voz firme apesar do medo. — E assim que der, vamos fazer um exame de DNA. Eu não vou fugir, nem mentir. Mas saiba que está me magoando muito.
Ele apertou os olhos, como se lutasse contra algo dentro dele.
— Você acha que eu quero duvidar? — perguntou, a voz rouca. — Acha que eu quero olhar pra você e pensar que me enganou? Eu tô tentando acreditar, Rúbia. Mas isso é... impossível!
— Então duvida de mim, mas não de Deus! — rebati, sem conter as lágrimas. — Você mesmo disse que a medicina te deu um diagnóstico, não uma sentença. Talvez estivesse errado. Talvez...
— Não. — respondeu, os dentes cerrados. — Não vou deixar você sair com isso engatilhado na sua boca. Me diz a verdade.
A pressão aumentou e eu senti a dor da incredulidade dele transformando-se em violência contida. A humilhação me fez gritar.
— Me solta! — gritei, a voz saindo rasgada. — Me solta, porra!
Os olhos dele tremeram por um segundo — não de ternura, de raiva — e o aperto cessou tão repentino quanto começou. Ele recuou, como se tivessem tirado fogo da mão. Me olhou com uma mistura de fúria e impotência, respirando com dificuldade.
Sem dizer nada, dei as costas e subi as escadas dois degraus de cada vez. As pernas não respondiam direito, a cabeça girava, o choro vinha e eu o contive porque precisava chegar ao quarto da Mia. Bati a porta com força, a fechadura rodou antes que eu conseguisse pensar. Tranquei com a chave.
Encostei as costas na madeira fria e deixei o corpo despencar para o chão. O som da casa lá embaixo continuou: passos, móveis, o trânsito distante. Mas ali dentro era só o meu peito que doía.
Segurei a barra da minha blusa com as mãos trêmulas e chorei como se pudesse lavar a vergonha, o medo e a felicidade confusa que me habitavam. Ao mesmo tempo, a risada dele — a descrença — martelava na minha cabeça.
— Eu não traí — sussurrei pra parede, como se a parede fosse testemunha melhor do que ele. — Eu não traí. Eu não faria isso.
A chave girou na fechadura do lado de fora — ele estava lá, fazendo barulho, decidindo talvez se abriria, se bateria, se me forçaria a falar algo que nem eu sabia.
Eu encolhi mais, protegendo o ventre que já não era só meu, com a certeza boba e feroz de que, por enquanto, só eu poderia guardar aquela vida.
No silêncio do quarto da Mia, entre brinquedos e o cheiro de talco, eu prometi baixinho: se ele duvidava tanto, quando chegasse a hora eu provaria com fatos. DNA, exames, o que fosse preciso. Mas, antes disso, precisava que ele me ouvisse sem armar julgamentos. Precisava que, por um segundo sequer, ele visse o milagre com os meus olhos — não com o ódio. Porque se não confiar em mim, não quero ficar com ele.
Fiquei ali, encostada à porta, enquanto as contrações do medo iam diminuindo, deixando espaço para outra coisa: uma ternura assustadora e enorme, que me fez sussurrar pra Mia, pra si, pra aquela criança que ainda nem tinha nome:
— Eu vou cuidar de você. Mesmo que o mundo inteiro desacredite. Mesmo que ele queira ir embora. Eu vou cuidar de você.

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