Capítulo 149
Rúbia
Eu já vinha estranha fazia dias.
Não era só enjoo — era uma soma de coisas que eu não sabia nomear: um cansaço preguiçoso nas pernas, cheiros que de repente me davam nojo, uma sensibilidade boba que me fazia chorar com propaganda de sabonete. Mas gravidez? Não. Impossível. Meses sem ver o ex. E Derrick… Derrick não pode ter filhos. Não tinha como.
Ainda assim, quando ele falou “médico”, eu aceitei. Melhor tirar isso da cabeça de uma vez. Alguma coisa estava errada comigo, e eu precisava saber o quê.
Ele pagou uma consulta particular. A clínica era limpa demais, organizada demais, daquelas que deixam a gente sem ar pelo excesso de silêncio. Derrick assinou o que tinha que assinar com a mão firme, Mia encostada no peito dele, a cabecinha no ombro, intercalando risadinhas com bocejos. Eu fiquei torcendo as mãos no colo.
Quando chamaram meu nome, senti o estômago virar.
— Eu vou com você — ele disse baixo.
— Fica com a Mia. — sorri de leve. — Eu te chamo se precisar.
Entrei. O médico era daqueles que falam devagar, com voz bonita e caneta elegante.
— Então, Rúbia, me conte como está e os sintomas.
Expliquei: o enjoo que vinha do nada, o cheiro de queijo que de repente me embrulhava, a vontade por coisas azedas, a moleza pela manhã. Ele foi anotando, assentindo.
— Teve atraso menstrual? — perguntou, como quem pergunta que dia é hoje.
Abri a boca e não respondi. Meu cérebro fez as contas, correndo de trás pra frente.
Um mês. Dois. Eu tinha colocado a culpa nas vitaminas que começara a tomar por causa do cabelo. Depois nos horários irregulares de sono. E não quis olhar de perto, porque… porque não podia ser. Mas pensando bem...
— Acho que sim — respondi, a voz menor do que eu gostaria. — É… é o segundo mês. Mas deve ser das vitaminas que disse para o senhor.
— Pode ser. — ele assentiu sem me contrariar — mas vamos checar. Vou pedir um painel de sangue completo. Beta-hCG inclusa. E, dependendo do resultado, marcamos uma ultrassonografia.
“Beta o quê?”
— Certo — falei, respirando fundo. — Vamos fazer.
Ele me encaminhou pra coleta. Enquanto a enfermeira ajustava o manguito no meu braço, eu olhei pro corredor através da porta entreaberta: Derrick balançava a Mia no saguão, fazendo um aviãozinho com a mão livre. A força dele — que sempre foi uma muralha — hoje parecia uma rede. Eu queria cair ali.
A agulha entrou, doeu menos do que meu medo.
— Prontinho, querida. — disse a enfermeira. — Pode pressionar aqui.
Saí com o algodão preso por um esparadrapo no braço e encontrei os dois. Mia esticou os bracinhos pra mim; peguei minha menina e encostei o rosto no cabelo dela. Cheiro de bebê sempre me acalma.
O celular do Derrick tocou. Ele olhou a tela. Era Luca, o chefe.
Atendeu na hora, voz firme e respeitosa como sempre. A voz dele era alta, ouvi:
— Escuta, preciso que venha até a clínica de atendimento da Amercana. — a voz de Luca vinha metálica, mas reconhecível. — Estamos fazendo uma ecografia e o obstetra conseguiu verificar o sexo do bebê. Ele anotou no documento. Venha buscar e prepare tudo para hoje à tarde fazermos o chá revelação. O meu filho está quase nascendo e ainda não havia mostrado o sexo.
Olhei pro Derrick. O maxilar dele contraiu e relaxou numa respiração.
— Tudo bem. — respondeu. — Só espera um pouco que trouxe a Rúbia numa consulta médica e já vamos. Assim ela me ajuda.
Uma pausa.
— Mas ela está bem? — Luca perguntou.
— Sim. Exames de rotina. — Derrick disse com a naturalidade de quem me protegia até do som da própria incerteza.
— Ok, eu espero. — veio a resposta antes de a ligação cair.
Eu não precisava que ele me contasse — tinha ouvido tudo.
— O médico vai demorar? — ele perguntou.
— Só precisamos avisar quando os resultados ficarem prontos. — respondi.
Voltamos à sala do doutor para o desfecho:
— Os resultados saem amanhã — explicou ele, profissional. — Se houver qualquer alteração, ligamos. Caso contrário, você volta com os exames em mãos. Tudo bem?
Derrick assentiu, já no modo prático:
— Passamos amanhã pra buscar os resultados e consultar, então.
Saímos. No corredor, ele segurou minha mão por um segundo, sem olhar muito — do jeito dele.
— Vamos organizar o chá da senhora Riley hoje à tarde. — disse.
— Já mandei vir. — Derrick devolveu, quase automático. Eu olhei pra ele e por um instante o vi como no começo: um homem que carrega o mundo sem barulho. Só que agora meu mundo também estava nas mãos dele.
Trabalhamos rápido. A equipe chegou; eu conferi mesas, rendas, o tom exato do dourado que não briga com os talheres, o tamanho do bolo que não precisa provar nada pra ninguém além de estar impecável. Mia, no carrinho, ria das fitas balançando no vento. Derrick ia e vinha, resolvendo, ligando, delegando.
E, o tempo todo, sem que ninguém percebesse, ele mantinha um olho em mim. Eu senti.
Quando tudo estava encaminhado e faltavam só detalhes, Riley encostou o queixo no ombro e falou baixinho:
— Obrigada, Rúbia. Fica sempre lindo quando você se mete.
— É porque você é minha amiga favorita.
Ela acariciou a barriga, emocionada.
— Hoje, de tarde, a gente descobre.
Olhei o envelope lacrado na minha bolsa e senti o coração amolecer por motivos bons. Esse tipo de segredo me alimenta — segredo que dá alegria quando se revela. Mas era o momento de abrir e ir atrás de como ficaria a revelação.
Na saída, Derrick aproximou o rosto do meu ouvido:
— Se quiser, a gente passa numa farmácia.
— Não precisa. Melhorou meu estômago — respondi, medindo as palavras. — Vamos esperar o resultado do laboratório. É melhor assim.
Ele assentiu. E, pela primeira vez desde a hora do vômito, soltou o ar como quem aceita que algumas respostas não dependem da força com que a gente fecha a mão.
De volta ao carro, Mia dormia. Eu encostei a cabeça no vidro e deixei a rua passar, devagar. A dúvida ainda existia, mas não me esmagava mais.
Olhei pra ele, perfil sério, bonito, atento ao caminho.
— Vai ficar tudo bem — falei, sem muita explicação.
Ele não perguntou “por quê”. Só estendeu a mão e tocou meus dedos por um segundo.
— Vai. — confirmou.
E seguimos — mostrei o resultado a ele da ecografia da Riley aberta e disse:
— Nem acredito..

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