— Teoricamente, essa possibilidade existe, mas a compatibilidade precisa ser superior a noventa por cento, e o risco de rejeição é muito maior do que no transplante de um parente.
— Mais importante, a probabilidade disso acontecer é menor do que ganhar na loteria.
— É quase nula.
As palavras do Prof. Silva foram como um balde de água fria.
A esperança que acabara de surgir nos olhos de Murilo Vieira começou a se apagar.
— Obrigado, Prof. Silva.
— Não importa o quão difícil seja, eu preciso tentar.
Sua voz era firme.
Quando desligou, a palma de sua mão estava coberta de suor frio.
Serena Alves observava a mudança em sua expressão e, embora adivinhasse o resultado, não perguntou nada, apenas lhe entregou silenciosamente um copo de água morna.
Murilo Vieira pegou o copo, e o calor em seus dedos ajudou a acalmar seu coração.
— Serena.
Ele ergueu os olhos para ela, uma leveza forçada em seu olhar.
— O Prof. Silva disse que células-tronco de não parentes também podem ser compatíveis.
— Posso pedir ao Fernando Laranjeira para entrar em contato com os principais bancos de medula óssea do país.
O coração de Serena Alves afundou.
Ela sabia a incerteza que se escondia por trás da palavra "possível".
— Murilo, sei que você não quer que eu corra riscos, mas com uma janela de apenas três meses, não podemos perder tempo.
Sua voz era urgente, mas seu olhar, excepcionalmente firme.
— O plano da fertilização in vitro, ainda precisamos prepará-lo.
A mão de Murilo Vieira que segurava o copo parou.
A leveza em seu rosto desapareceu, substituída por um profundo conflito.
— Não.
Seu tom era decidido.
— A fertilização in vitro causa danos demais ao corpo de uma mulher.
— Não posso deixar que você corra esses riscos por minha causa.
— E se encontrarmos um doador compatível?
— Não há necessidade de fazer um sacrifício inútil como esse.
Serena Alves olhou para sua teimosia, o coração doendo de raiva e compaixão.
— Sacrifício inútil?
— Murilo, quando se trata da sua vida, isso não é um sacrifício.
— É uma escolha que faço de bom grado.
— Eu gosto de você, não por impulso ou culpa, mas porque realmente quero passar o resto da minha vida com você.
— Eu prometo.
Ele ergueu a mão e gentilmente enxugou a umidade no canto dos olhos dela.
O calor de seus dedos fez o coração de Serena Alves tremer.
A luz do sol entrava pela janela, caindo sobre suas mãos entrelaçadas, como se as cobrisse com um brilho quente.
Mas apenas eles sabiam a ansiedade e a inquietação que se escondiam por trás daquele brilho.
Naquela tarde, Fernando Laranjeira levou o prontuário detalhado de Murilo Vieira ao maior banco de medula óssea do país.
Murilo Vieira, deitado na cama do hospital, atualizava constantemente o grupo de contatos em seu celular.
Cada notificação fazia seu coração apertar.
Serena Alves estava sentada no sofá ao lado, aparentemente lendo documentos, mas seu olhar estava sempre sobre ele.
Ela via seus lábios pressionados, a ansiedade escondida em seus olhos, mas não disse mais nada.
Ela sabia que, naquele momento, Murilo Vieira precisava de confiança e apoio, não de pressão.
O tempo passou lentamente.
O sol se pôs, pintando o quarto com tons quentes de amarelo.
Fernando Laranjeira finalmente enviou uma mensagem.
— A triagem inicial foi concluída, nenhum candidato compatível encontrado.
— Já entrei em contato com outras três instituições de renome, a busca simultânea começará amanhã.

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