STELLA HARPER
O tempo era um carrasco.
Cada minuto era um teste contra meus nervos já em frangalhos. As horas se arrastavam com uma lentidão cruel, esticando a manhã em uma eternidade de incerteza. Damian havia saído pouco depois das oito. Já passava de uma hora.
Elaine estava tão nervosa quanto eu, mas tentava disfarçar com uma calma forçada que não enganava ninguém. Ela preparou chá, arrumou flores que não precisavam ser arrumadas e limpou balcões que já brilhavam pelo trabalho das empregadas. Qualquer coisa para manter as mãos e a mente ocupadas. A casa estava silenciosa demais. Apollo e Orion, estavam na escola, e Danian, tirava sua soneca da tarde, depois de almoçar. Essa quietude deixava espaço demais para os piores pensamentos.
Eu não conseguia me concentrar em nada. Andei pela sala de estar tantas vezes que sentia que poderia ter cavado um buraco no tapete. A cada cinco minutos, meu olhar era puxado para o meu celular, pousado na mesinha de centro, que hoje tinha se mostrado inútil. Damian prometera que tudo acabaria hoje. Prometera que ficaria bem. Mas as horas passavam, e o silêncio era um veneno que se infiltrava em minha corrente sanguínea, espalhando o pânico.
— Ele é forte, Stella. E inteligente. — Elaine disse, pela terceira vez naquela manhã, parando ao meu lado perto da janela. A chuva fraca batia contra o vidro, distorcendo a paisagem lá fora em um borrão cinzento. — Ele sabe o que está fazendo.
Forcei um sorriso, mas senti meus lábios tremerem.
— Eu sei. Eu só... odeio isso. Odeio esperar sem poder fazer nada.
— Nenhuma mãe ou esposa gosta. — ela respondeu, colocando uma mão reconfortante no meu ombro. — Mas confiar nele é a única coisa que podemos fazer agora.
Assenti. Voltamos para a sala, para a nossa vigília silenciosa, unidas pela mesma angústia.
E então, o som.
Fraco a princípio, mas inconfundível. O som de cascalho sendo esmagado pelos pneus de um carro se aproximando. Meu coração deu um salto tão violento que fiquei sem ar. Elaine e eu nos encaramos, nossos olhos arregalados com a mesma pergunta aterrorizada e esperançosa.
Corri para a porta da frente, sem nem pensar em pegar um guarda-chuva. Abri-a no exato momento em que o Audi preto de Damian parou em frente à escadaria. A chuva me encharcou instantaneamente, mas eu não me importei.
A porta se abriu e ele saiu.
Meu alívio foi tão avassalador que minhas pernas fraquejaram.
Mas algo estava errado. Ele se movia com uma rigidez que não era natural. Seu rosto estava pálido, marcado pela exaustão. O paletó estava amassado e havia uma mancha escura em sua camisa preta que a chuva não conseguia disfarçar.
Sem pensar, desci as escadas correndo, a chuva encharcando meu cabelo e minhas roupas. Ele me viu e seus ombros, antes tão tensos, relaxaram. Um sorriso cansado brotou em seus lábios quando me aproximei.
Me joguei em seu braços, enterrando o rosto em seu peito. Ele me abraçou com força e uma de suas mãos subiu para segurar minha nuca. O cheiro dele me inundou e todas as preocupações desapareceram
— Acabou, meu amor. — sua voz era um murmúrio rouco contra meu cabelo. — Acabou.
Afastei-me o suficiente para olhar em seus olhos. Toquei seu rosto, sentindo a barba por fazer arranhando a ponta dos meus dedos.
— Você está bem? O que aconteceu? Você está machucado?
— Estou bem. — ele garantiu, mas vi a pontada de dor em seu olhar quando me mexi. — Vamos entrar.
Ele obedeceu, sentando-se na beirada do colchão enquanto eu me ajoelhava na sua frente e começou a desabotoar sua camisa. Quando afastou o tecido molhado, meu fôlego ficou preso na garganta.
Uma mancha roxa e preta, do tamanho de um punho fechado, se espalhava pelo lado esquerdo de seu peito, bem em cima do coração. A pele estava inchada. A imagem do que poderia ter acontecido se ele não estivesse usando aquele colete me atingiu com a força de um soco.
— Damian... — sussurrei, traçando a borda do hematoma com a ponta dos dedos.
— Eu estou bem, Stella. — ele disse, gentilmente, pegando minha mão e levando-a aos lábios. — Estou aqui. É só isso que importa.
Elaine trouxe uma compressa de gelo e um analgésico. Depois de se certificar de que Damian estava confortável, ela nos deixou a sós, fechando a porta suavemente atrás de si.
Ajudei-o a tirar o resto das roupas molhadas e a entrar no banho. Fiquei sentada na tampa do vaso sanitário, apenas observando-o, precisando da certeza visual de que ele estava seguro.
Mais tarde, deitados na cama, com ele vestido com roupas limpas e confortáveis, aninhei-me ao seu lado. Ele me contou os detalhes, enquanto a chuva continuava a cair lá fora, lavando o mundo.
Ele me puxou para mais perto, o braço envolvendo minha cintura com cuidado. Sua cabeça repousava na curva do meu pescoço, a respiração quente e constante contra a minha pele.
— Acabou. — repeti as palavras dele, como um mantra. — Realmente acabou.
— Sim. — ele concordou, a voz já pesada de sono.
A tempestade lá fora estava passando, e eu sabia, com uma certeza absoluta, que o nosso sol voltaria a brilhar.

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