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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 178

Cap.177

Pov Adon

— Você acha mesmo? — a voz dele saiu baixa, mas carregada de uma força que fez o ar parar. — Você acha que eu te dei tudo, Adon? Que coloquei você à frente de Átila, de Axel, que te entreguei as chaves do meu império porque você era um objeto? Que te criei, te eduquei, te protegi mesmo depois de achar que Simone havia morrido, tudo porque você era um brinquedo?

Ele deu um passo à frente, o olhar perfurante. Ergueu a mão e bateu no próprio peito com a palma aberta, um baque surdo que ecoou na sala silenciosa.

— O que eu devo pensar agora?

— Você acha que eu… eu te usaria dessa forma? E te daria a faca para me matar, para me substituir, se você fosse apenas um brinquedo? — Sua voz subiu de tom, não em gritaria, mas em uma intensidade fervorosa que eu nunca havia ouvido antes. — Eu te criei como filho! Desde o dia em que a Samilly te aceitou e eu vi, de longe, um menino magricela protegendo um bebê como se fosse o tesouro mais precioso do mundo! Eu te observei! Vi você cuidar da minha filha, vê-la crescer, protegê-la mesmo quando ela mal cabia nos seus braços! Você acha que isso foi planejado? Que foi estratégia? Foi a única coisa que eu não planejei nessa bagunça. Quando você estava no orfanato, eu queria te usar como arma, mas quando foi para as mãos da mulher que eu amava, você se tornou um filho! Me diz: qual foi seu sentimento quando entregou Simone?

A imagem que ele pintou invadiu minha mente, memórias embaçadas de uma infância distante, de uma menina de cabelos cacheados que eu carregava no colo. Simone. Sempre Simone. Minha primeira, mais profunda e amada lealdade.

— Doeu mais em mim deixá-la lá do que em você! — a acusação saiu como um gemido, minha própria dor transbordando. — Você a abandonou! Eu a carreguei todos os dias no meu remorso!

— SIM! — Alex gritou de volta, sem hesitar, o rosto uma máscara de agonia confessada. — Simone significou mais para você do que para mim naquele momento! Porque eu era um covarde! Um líder obcecado por poder e vingança, que não soube proteger a própria filha! Mas ela ainda era minha filha, Adon! E eu a amava! Como amo todos os meus filhos! Com todas as minhas falhas monstruosas, eu a amava! E a prova foi ter aberto mão dela para que Samilly a criasse em segurança.

Ele respirou fundo, tentando se recompor, mas a emoção ainda tremia em suas palavras.

— Mas você sabe por que a Samilly te adotou? Por que ela te colocava sempre ao lado de Simone?

A pergunta me pegou de surpresa. Eu sempre achei que fosse por companhia. Por caridade. Mas, com o tempo, fui entendendo a importância de estar ao lado de Simone.

— Para protegê-la — respondi automaticamente.

— Exatamente. Mas de quê, Adon?

Fiquei em silêncio. Meus olhos se estreitaram, vasculhando as memórias mais antigas, aquelas que vinham antes da mansão Felix, antes da riqueza, antes de Alex. Havia uma figura sombria… um menino mais velho…

— Daniel — o nome saiu dos meus lábios como um fantasma. O filho biológico do marido da Samilly. Meu… meio-irmão por adoção? Um garoto de olhos escuros e sorriso raro.

— Ele tinha a sua idade — Alex continuou, a voz agora um fio cortante de verdade. — E odiava Simone. Não aceitava aquela criança na família. Via-a como uma invasora, uma usurpadora do afeto do pai. Por muitas vezes, Samilly passou por situações perigosas com Simone por causa dele. Acidentes. Quedas. Objetos quebrados. Ela tinha medo. E então, colocou você ao lado de Simone como irmão. Você não se lembra?

Como um filme em câmera lenta, as peças se encaixaram na minha mente.

O berço virado no quarto, com Simone chorando dentro. Eu, aos oito anos, gritando por ajuda.

Os cacos de vidro no chão da cozinha, perto de onde Simone engatinhava. O olhar rápido e sombrio de Daniel desaparecendo pela porta.

Eu, sempre colocando meu pequeno corpo entre Simone e qualquer ameaça, mesmo sem entender completamente.

Eu a vigiava durante os cochilos. Segurava sua mão com força quando Daniel estava por perto. Escondia dela os pequenos presentes ameaçadores que ele deixava — insetos mortos, desenhos rasgados.

— Eu… eu suspeitava — minha voz saiu em um sussurro, a memória daquela antiga vigilância voltando como uma maré. — Por isso eu não a deixava sozinha.

— Por isso você a salvou — Alex concluiu, o tom mais suave agora, mas ainda intenso. — Inúmeras vezes. Desde que ela era um bebê. Você tinha um instinto de protetor que nem a lavagem cerebral que Omar tentou fazer depois conseguiu apagar completamente. E por isso eu tive tanta estima por você. Por isso eu te criei como meu. Porque você já era, no coração e na ação, o irmão que ela precisava. Você é meu filho! Não por sangue, mas por escolha! Pelo laço que você mesmo construiu!

Ele fez uma pausa, o olhar pesado.

— E Omar também te queria. Não apenas porque você é seu primogênito. Mas porque você é filho da única mulher que ele diz ter amado de verdade. Essa briga… é justamente porque ele quer o filho dele de volta. E eu… eu não vou entregar. Nunca.

A revelação final foi um golpe de misericórdia. Um rugido de frustração e dor escapou da minha garganta.

— POR QUÊ? — gritei, avançando em direção a ele. — Você poderia ter evitado tudo isso me entregando! Por que causar tanto sofrimento? Tanta morte? Tanta dor para a Simone?

— Eu pensei várias vezes em te entregar, mas depois que pensei que Simone havia morrido — Alex disse, a voz se tornando mortalmente calma, os olhos vidrados em um ponto distante — eu não via mais sentido nisso. Ele já havia tirado minha filha. Por que eu daria a ele meu filho também? Afastei Omar. Pintei a imagem dele como o monstro que ele realmente é. Fiz você desprezá-lo como pai. E não foi difícil, Adon. Porque ele é um monstro. Tudo o que eu disse que ele fez… ele fez. Matou. Destruiu. Manipulou. A única mentira foi o motivo. Ele não queria apenas o Grupo. Ele queria você, o único filho que teve com a mulher que amava. A mesma que morreu ainda no parto.

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