Cap.175
Pov. Selene.
O papel pesava na minha mão muito mais do que seu peso real. A assinatura no final da página — a minha — parecia um risco de caneta vermelha sobre a minha própria vida, depois de assinar a anulação de um casamento ilegal.
Contrato de União Civil Irrevogável entre Mathias e Selene.
Irrevogável.
A palavra ecoava na minha cabeça, um som oco e definitivo.
Eu o havia assinado. De propósito. Com frieza. Era a minha terceira opção — fazer algo que parecesse minha vontade para ganhar a confiança de alguém. A única brecha que consegui cavar dentro daquela gaiola dourada. Entrar no jogo para sobreviver. Para ganhar tempo. Para ter acesso.
E agora, estava validado.
Eu estava noiva do homem que me vendeu.
A ironia não poderia ter sido mais debochada nem mais cruel comigo.
Levantei-me da beirada da cama, as pernas um pouco trêmulas, mas o propósito sólido. Com o contrato dobrado na mão, segui pelo corredor silencioso em direção ao escritório de Omar. As empregadas-fantasma se afastaram com reverências mudas.
Elas já sabiam.
Tudo ali acontecia conforme um script escrito antes mesmo de eu entrar em cena.
A porta do escritório estava entreaberta. Omar estava sentado atrás da enorme escrivaninha de madeira escura, nem lendo, nem trabalhando.
Apenas me esperando.
Como se eu fosse um relógio, e ele soubesse exatamente a hora em que eu iria bater.
— Entre, minha querida — sua voz chegou antes mesmo de eu atravessar a porta.
Ele empurrou um novo documento em minha direção. Era mais elaborado, com brasões e letras góticas. O contrato de casamento definitivo.
Sem hesitar — porque hesitar era demonstrar fraqueza, e fraqueza era uma ferramenta de manipulação que aquele homem adorava usar — peguei a caneta que ele oferecia e assinei.
O som da ponta raspando o papel foi o único ruído na sala.
Omar sorriu. Um gesto lento, que não alcançou os olhos, sempre ocultos sob a sombra do chapéu de abas largas que ele nunca tirava. Por algum motivo proposital, ele se escondia de mim. Eu não me lembrava de jamais tê-lo visto sem aquilo — e isso me deixava inquieta.
— Muito bem. Eu já sabia que você aceitaria. Não demorou nem três dias. Por isso, já estava tudo preparado — disse ele, fazendo um gesto teatral com a mão. — Em cinco dias, você sairá em público. A festa de noivado. Será discreta, apenas os necessários… mas será o primeiro passo para o mundo entender que você agora está sob nova proteção. Todos saberão que você é filha do grupo Felix, mas que também está amarrada à minha família. Assim… tornar-se-ão apenas uma.
Ele se levantou e se aproximou, estendendo a mão — talvez para um cumprimento, talvez para tocar meu rosto.
Eu não recuei. Mas também não me inclinei.
Permaneci imóvel, e sua mão parou no ar antes de retornar ao próprio corpo.
O olhar oculto parecia me avaliar, surpreso e talvez levemente irritado com a minha ausência de reação histérica. Mas, apesar de tudo… eu queria viver. Por alguma razão profunda, não era assim que eu queria acabar.
Foi então que a pergunta, que fermentava em mim desde a primeira vez que o vi, brotou. Não era estratégica. Era apenas uma necessidade humana de compreender o monstro que segurava minha coleira.
— Por que você sempre usa esse chapéu? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Por que esconde seu rosto?
Omar parou.
Um silêncio pesado caiu entre nós. Ele inclinou a cabeça e, pela primeira vez, tive a sensação nítida de que estava genuinamente considerando me responder.
— Bom — disse ele, num tom quase confidencial, perverso — agora que você já assinou… agora que está irrevogavelmente ligada a este futuro, talvez não haja mais razão para esconder a fachada, certo? — Sua mão foi até a aba do chapéu. — Mesmo que você nunca tenha me visto de verdade… acho que vai se lembrar de pelo menos uma coisa.
Ele tirou o chapéu.
O mundo não desfocou, Ele se partiu, O rosto que emergiu da sombra era impossível. Era como um pesadelo espelhado.
Era Adon.
A linha do queixo. A curva dos lábios. A forma das sobrancelhas. A arquitetura dos ossos da face, Tudo igual. Tudo idêntico, Só que… mais velho.
Onde Adon tinha a pele lisa e uma expressão por vezes carregada de angústia juvenil, aquele rosto trazia marcas de décadas: uma palidez que falava de ausência de sol, cabelos grisalhos cortados com a mesma precisão.
A semelhança era tão absoluta que, por um segundo, meu coração parou, achando que o próprio Adon — envelhecido de forma impossível — estava diante de mim.
Isso me apavorou, Quem era aquele homem?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!