Cap.136
Átila hesitou. Tudo o que queria era confrontar Alex, investigar o que acontecera na universidade, mas a animação frágil de Adon era um chamado que não podiam ignorar. Ele ainda era seu irmão. E parecia estar se segurando por um fio de esperança.
— Estamos indo — disse Átila, a voz grave mascarando o turbilhão interno.
O endereço levou-os a um bairro sereno e arborizado, longe do centro empresarial e das memórias sombrias. A “casa” era, na verdade, uma mansão imponente, porém com um ar mais acolhedor do que a fortaleza de Alex, a antiga casa de Adon e até o apartamento que Selene já conhecia. Os jardins eram impecáveis, e luzes quentes brilhavam nas janelas.
Ao entrar, a cena que os aguardava era surreal. Adon, vestindo jeans e uma camiseta simples — um visual que ele não usava há anos —, supervisionava uma equipe de decoradores.
Móveis cobertos com panos brancos enchiam o saguão; plantas eram posicionadas; quadros ainda estavam encostados nas paredes.
— Finalmente! — Adon os cumprimentou com um sorriso amplo, o mais genuíno que viam nele desde antes da tragédia com Selene. Seus olhos tinham um brilho que faltava havia semanas. — O que acham?
— Está… incrível, Adon — Axel conseguiu dizer, olhando ao redor com perplexidade. — Mas por quê? Por que se mudar agora? E para um lugar tão grande?
Adon os conduziu pela casa, sua animação contagiante e, para os dois irmãos, cada vez mais aterradora.
Mostrou a biblioteca com prateleiras vazias — ela adora ler, vai preencher isso fácil —, a cozinha enorme com ilha central para “nossos jantares em família”, a sala de estar com vista para o jardim (“onde vamos passar as noites”). A cada ambiente, ele parecia já ter tudo planejado.
— Adon — Átila interrompeu. — Para quem é esta casa?
Adon parou diante de uma porta de madeira maciça. Seu sorriso se tornou suave, carregado de uma expectativa quase sonhadora.
— Para mim. E para ela. Estamos casados. E estive pesquisando… isso são coisas que casais fazem. Eles moram juntos, planejam suas vidas, certo?
Ele abriu a porta.
Era o quarto principal. Enorme, arejado, com uma cama king size ainda sem lençóis. Mas o que chamou a atenção não foram os móveis.
Em um closet aberto, penduradas cuidadosamente, havia dezenas de vestidos, blusas e saias. Todas no tamanho de Selene.
Cores que combinavam com seu tom de pele, estilos que lembravam as poucas roupas que ela usava. Em uma penteadeira, joias discretas e frascos de perfume ainda fechados.
— Comprei algumas coisas, para ela se sentir em casa — Adon explicou, tocando a manga de um vestido de seda azul. — Sei que ela gosta de coisas simples, mas… merece o melhor.
Átila sentiu o estômago se contrair. Axel ficou imóvel, a expressão congelada entre o horror e a pena.
— Eu decidi — Adon continuou, voltando-se para eles, os olhos brilhando com uma convicção assustadora. — Vou contar a ela a verdade. Que somos casados. Que esse contrato… pode ser o começo de algo real. Eu não vou forçar nada. Mas vou mostrar esta casa. Vou dizer que esperarei o tempo que for preciso. Aqui. Longe do meu pai, longe da empresa, longe de tudo que a machucou. Aqui nós podemos ser um casal. Eu, ela… — sua voz baixou para um sussurro cheio de esperança — …e, quem sabe, no futuro, nossos filhos.
O silêncio que se seguiu foi estagnante.
O sonho de Adon, tão cuidadosamente construído, tão cheio de amor e arrependimento genuínos, era um castelo de areia erguido sobre um abismo que ele não enxergava. Cada palavra era uma faca girando no peito de Átila e Axel.
— É… um plano — Axel finalmente forçou as palavras para fora, a voz rouca.
— Vocês gostaram? — Adon perguntou, buscando aprovação.
— Está… lindo. Bem planejado, bem pensado… — Átila mentiu, sentindo o peso das palavras. — Realmente lindo.
Eles passaram mais alguns minutos ouvindo Adon detalhar seus planos: o quarto das crianças na ala leste, o estúdio para ela estudar, a horta orgânica que pretendia fazer. Cada detalhe era um prego no caixão da realidade.
— Precisamos ir — Átila interrompeu, gentil, mas firme. — Temos… coisas para resolver.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!