Cap.10
Selene continuou ouvindo, sentindo o chão desaparecer debaixo dos pés.
— todo esse dinheiro? — a madre arregalou os olhos ao receber o cheque com um valor.
— E em troca… — o outro completou, com um sorriso cínico. — Apenas nos disponibiliza as mais crescidas, as meninas que já estão chegando aos 16 e 18 anos é suficiente.
O coração de Selene gelou.
— Eu não posso… isso é errado… — a madre sussurrou, aflita, mas a insegurança em sua voz era clara, mesmo entregando o cheque a eles,
— Errado? — o primeiro debochou. — Errado é deixar essas crianças passando fome. A senhora poderia salvá-las. É só nos dar o que não vai demorar a se perder de qualquer forma, estamos apenas oferecendo um valor por algo que já é inevitável quando elas saírem. Afinal, nenhuma delas vai continuar aqui a partir dos 18 anos. Você pode nos mandar com a promessa de um novo lar, o que não é mentira, já que elas poderão ter uma casa, comida, roupas, tudo que quiser.
— Não sei…
— Você tem tempo de pensar. Não vamos querer respostas negativas quanto a isso, e amanhã você pode escolher qual delas já está pronta para ir com a gente. Ou, se você mesma não escolher, nós mesmos faremos!
Selene sentiu o sangue ferver. Sem pensar, saiu de trás da parede e avançou.
— Vocês são monstros! — gritou, a voz trêmula, mas cheia de coragem. — Acham mesmo que podem vir aqui e transformar meninas inocentes em mercadoria?
Os dois homens a fitaram, surpresos pela ousadia.
— Selene, não! — a madre tentou segurar seu braço, mas ela se soltou.
Selene ergueu a mão e, em um gesto impulsivo, deu um tapa no rosto de um deles.
— Canalhas! Saiam daqui! O que pensam que estão fazendo?
O impacto ecoou no silêncio que se seguiu.
O homem tocou o rosto devagar, depois riu com desprezo.
— Essa pirralha tem coragem… — o outro comentou, enquanto o homem que recebeu o tapa tinha um olhar sombrio.
— É por isso que pessoas como ela devem saber onde estão se metendo.
De repente, ela foi empurrada contra a parede com violência. O ar saiu de seus pulmões.
— Vai aprender a não meter o nariz onde não é chamada, vadia! — o outro rosnou, segurando-a pelo braço.
A madre tentou intervir, mas foi agarrada também, contida à força e jogada no chão.
— Madre... fique de fora disso! Não machuquem ela — Selene gritou, tentando ir em direção à madre, mas uma dor lancinante tomou suas costas.
Selene se debatia, gritando, mas um deles a arrastou pelo corredor em direção à porta lateral. O medo tomou conta; a adrenalina queimava em suas veias.
Foi então que uma voz soou atrás deles, calma e carregada de veneno.
— Deixem ela comigo.
Os homens pararam de imediato. Selene, mesmo assustada, virou o rosto.
Os capangas se entreolharam e, com um meio sorriso, soltaram Selene.
— Essa pirralha se mete demais. Deveríamos dar um recado, por isso é bom que você não alivie as coisas para ela — o outro alertou em tom de ameaça e se retiraram.
O sorriso de Mathias era frio, quase um troféu. Ele chegou até Selene com passos preguiçosos, pegando-a pelo cabelo com uma mão firme e arrastando-a alguns metros, fora do pátio, para que ninguém mais a ouvisse gritar.
— O que você está fazendo aqui? Pensei que ele ficaria com você por alguns dias, sem falar que está bem demais para alguém que foi vendida — perguntou ele, sem afeto. — Por que se meteu nisso?
Antes que Selene pudesse responder, o celular dele tocou. Pegou o aparelho com a outra mão, apertou para atender e ouviu a voz do chefe do outro lado, áspera e rápida.
— Mathias, a mercadoria não foi entregue. Tivemos alguns imprevistos e o chefe teve que mudar o caminho. Você deveria ter sido mais cuidadoso. Ele quer o dinheiro de volta agora. Ou traga a moça amanhã.
Mathias mordeu o lábio com impaciência. Doeu quando puxou Selene com mais força, fazendo-a cambalear no chão na saída do lugar. A mão que segurava seu cabelo apertou, provocando outro gemido de dor.
— Calma — disse Mathias, com voz baixa, olhando para o chamador. — Eu resolvo. Vou investigar o que aconteceu para que o plano tenha dado errado.
Quando desligou, virou-se para ela com olhos que não conheciam remorso.
— Mas que merda! Por que você fugiu, hein?
— Eu fugi? E tinha como? Mas, para seu azar, não aconteceu nada — ela riu com deboche.
Com desprezo, Mathias deu-lhe um tapa que a jogou de costas no chão sujo. Selene sentiu o mundo rodar; o lábio estourado ardia.
— Por que está fazendo isso? — conseguiu sussurrar, cada palavra saindo como se raspasse sua garganta. — Por que você está envolvido com esses homens? Por que com o orfanato? É a minha casa, por que está fazendo essas coisas horríveis?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!