Nos dias seguintes, o clima entre Eduardo e Helena permaneceu praticamente o mesmo.
Durante o café da manhã, trocavam poucas palavras, limitando-se à cordialidade fria de duas pessoas que já não sabiam como se aproximar.
À noite, quando os compromissos profissionais exigiam a presença dos dois, desempenhavam com perfeição os papéis de um casal apaixonado.
Ninguém desconfiava de que, por trás daquela harmonia cuidadosamente encenada, havia uma distância cada vez maior.
Em casa, Eduardo parecia se transformar.
Ora se aproximava de Helena com uma intimidade inesperada, provocando-a com palavras ambíguas e olhares intensos; ora recuava sem explicação, deixando-a sozinha com dúvidas que não conseguia esclarecer.
Helena já não sabia como interpretar suas atitudes. A cada tentativa de compreender o marido, encontrava uma nova barreira.
Eduardo, por sua vez, continuava observando-a, esperando que algum gesto, alguma palavra ou alguma reação confirmasse aquilo em que escolhera acreditar.
Até que, certa manhã, dois toques discretos.
— Entre.
Murilo abriu a porta e entrou com cautela. Trazia nas mãos uma única folha de papel.
Eduardo estava sentado atrás da mesa, examinando documentos. Nem sequer ergueu os olhos quando perguntou:
— O que foi?
Murilo se aproximou, mas parou a alguns passos da mesa.
Seu olhar percorreu a mesa do chefe quase involuntariamente. A desordem era incomum. Papéis estavam espalhados por toda parte, pastas permaneciam abertas e documentos que normalmente estariam organizados em pilhas precisas ocupavam boa parte da superfície.
Eduardo Monteiro sempre fora meticuloso. Até nos dias mais difíceis, mantinha o ambiente de trabalho sob absoluto controle.
Naquela manhã, porém, havia sinais de que alguma coisa estava escapando ao seu domínio.
Foi então que Murilo notou o cinzeiro.
Algumas pontas de cigarro repousavam ali, ainda recentes. Eduardo raramente fumava, e aquele detalhe, somado às olheiras e ao semblante cada vez mais sombrio do chefe, não passou despercebido.
Murilo manteve a postura profissional e não fez nenhum comentário.
— Senhor, recebemos uma atualização sobre as contas de sua esposa. Houve uma movimentação incomum.
Dessa vez, Eduardo ergueu os olhos. O olhar frio fez Murilo endireitar discretamente a postura.
— Dê-me isso.
Murilo estendeu a folha. Eduardo a tomou imediatamente e começou a ler.
No primeiro instante, sua expressão não mudou. Apenas os olhos avançaram pelas linhas, atentos aos valores e às datas.
Então sua mandíbula se contraiu e depois voltou ao início do documento, como se esperasse descobrir algum erro que alterasse o significado daqueles números.
Não havia erro.
O relatório registrava a retirada de praticamente todo o saldo disponível na conta destinada às despesas pessoais de Helena e à manutenção da casa. O fundo de reserva, destinado a reformas e à redecoração da residência que nunca tinha sido tocado, agora também havia sido retirado.
Restava apenas o valor necessário para cobrir as despesas domésticas daquele mês.
Eduardo permaneceu imóvel, segurando o papel entre os dedos.
Desde que ouvira a conversa entre Helena e Danilo, dera instruções para que Murilo acompanhasse discretamente as movimentações das contas sob a responsabilidade de Helena. Não queria confrontá-la sem provas. Preferia observar, reunir informações e descobrir o que ela pretendia fazer antes que o contrato chegasse ao fim.
Até então, os números não haviam revelado nada significativo. Agora, aquela folha parecia responder à pergunta que o perseguia havia dias.

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