Com um nó no peito, Célia respirou fundo e abriu as redes sociais de Gustavo.
A página carregou, exibindo uma série de compromissos na agenda dele:
[Exames médicos da Nina]
[Reservar voo e hotel para a Nina]
[Aniversário da Nina]
[Nina...]
Já as anotações referentes a Célia só apareciam rolando a tela até o final, datadas do dia em que assinaram os papéis do casamento, três anos atrás.
Célia recostou-se na cadeira, sentindo as pontas dos dedos ligeiramente geladas.
Reprimindo suas emoções, abriu outra pasta e começou a examinar as recentes aquisições imobiliárias e transações de ações de Gustavo.
Ela não entendia muito do assunto, mas não tinha problema.
Ela fotografou todos os documentos que conseguiu encontrar, compilou tudo em um e-mail e enviou para Carolina.
Carolina respondeu prontamente:
[Os documentos são úteis, bom trabalho. As coisas também estão avançando bem por aqui.]
Ela fechou o notebook e se levantou.
A chuva que começara de dia ainda não havia dado trégua. Célia foi até a janela e abriu uma frestinha; o vento gélido, carregado de garoa, açoitou seu rosto. Estava um pouco frio, mas ela gostava daquela sensação.
Ao amanhecer do dia seguinte, Célia já se encontrava no ateliê de seu mestre.
O ateliê ficava nos arredores da cidade, cercado por muito verde. O vento soprava pelas trepadeiras nos muros, produzindo um farfalhar contínuo.
Ela havia passado quase vinte anos de sua vida naquele lugar.
Caminhar por ali agora lhe trazia a sensação de ter vivido em outra vida.
Sobre a mesa, descansava uma pintura de flores e pássaros danificada; o papel estava esverdeado, as cores desbotadas, e havia vários rasgos na obra.
Quando o assunto era sua especialidade, Célia entrava no ritmo de imediato.
Colocando luvas descartáveis, ela abaixou o ângulo da luminária e inclinou ligeiramente a cabeça para observar a superfície do papel.
— A área danificada é bem grande. Já foi restaurada antes? — ela perguntou.
— É o que parece. — Valter soltou um muxoxo. — Mas de forma muito amadora. O preenchimento das cores ficou grosseiro e ainda danificaram o papel.
Célia usou uma pinça para levantar delicadamente um pequeno fragmento de remendo sobressalente, franzindo o cenho: — Teremos que amolecer e remover isso primeiro, e depois restaurar seguindo a textura original.
— Hum. — Valter assentiu, satisfeito. — O talento continua aí, não me envergonhou.
Célia sorriu com os olhos: — Estou um pouco enferrujada.
— Se tivesse perdido a mão de verdade, eu nem deixaria você encostar nessa pintura. — ele pausou e, de forma um tanto rígida, perguntou: — Como foram as coisas para você nesses últimos anos?

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