À noite, sete e meia.
A cozinha da Mansão Menezes estava cheia de vapor quente.
O peixe estava no forno, o ensopado de carne apurava o molho, o queijo de coalho estava cortado em cubinhos perfeitos, e o caldo encorpado borbulhava lentamente no fogão.
Gustavo abriu a porta e entrou.
O homem vestia um sobretudo escuro por cima de um terno de corte impecável, com a gravata um pouco afrouxada.
Ao ver Célia preparando o jantar para ele, seu olhar severo suavizou um pouco.
Célia continuava atarefada na cozinha.
Ao ouvir o barulho, ela não se virou, nem parou o que estava fazendo.
Antes, ela correria para recebê-lo de imediato, feliz por Gustavo ter chegado a tempo de jantarem juntos.
Hoje em dia, ela sequer lhe lançava um olhar de canto de olho.
Gustavo passou os olhos pela bolsa perto da porta e tomou a iniciativa de cumprimentar:
— Você... saiu hoje?
— Sim. — Célia serviu a sopa. — Fui ver uma amiga. E aproveitei para entrar em contato com meu mestre.
— Seu mestre? — Gustavo tirou o casaco e desabotoou os punhos da camisa. — Aquele das pinturas?
— Sim. — Ela assentiu. — Quero voltar para o ateliê.
Gustavo parou o que estava fazendo e a encarou:
— Por que essa ideia de repente?
— Ficar em casa me dá tédio, não consigo ficar parada. — Célia sorriu, com um tom de voz apático.
Ouvindo aquilo, Gustavo sentiu que havia algo errado, mas não sabia dizer o quê.
— Não é bom aproveitar a vida em casa? — Ele franziu a testa.
— Eu não fico tranquilo com você saindo para trabalhar, e se alguém te tratar mal? — Ele falou com ternura, como se estivesse pensando em tudo para o bem dela.
Mas, para Célia, ouvir aquilo só dava náuseas.
Esse tipo de comentário, que parecia preocupação com ela, já havia sido dito umas dez vezes, se não mais. Antes ela sempre dava ouvidos a Gustavo, mas o resultado final era sempre em benefício dele.
Ele nunca esteve preocupado se ela seria maltratada.
Ele se preocupava era que ela escapasse de seu controle.
— Ficar em casa é bom. — Ela não o desmascarou, apenas deu um sorriso leve. — A Nina... o nome dela é Nina, não é? Você cuidou dela a noite toda ontem? Ela está melhor?
Ossos de frango, de porco e de boi, escaldados cuidadosamente para remover as impurezas, com a espuma retirada camada por camada, temperados com as especiarias que ela mesma misturava e cozidos em fogo baixo.
A sopa de hoje tinha sido feita pela Dona Luana, usando um caldo pronto de caixinha.
Claro que o sabor era diferente.
Gustavo olhou para a atitude dócil dela, e sentiu um leve alívio no peito.
Ele se lembrou novamente da cena no velório, quando ela o pressionou sobre a vaga para o tratamento do pai, com os olhos assustadoramente vermelhos.
Ele sempre fora arrogante em relação às suas próprias decisões e não achava que houvesse nada de errado em ceder a vaga do pai dela para outra pessoa.
Mas, naquele momento, ele tinha ficado um pouco apreensivo.
Ainda assim, a Célia de hoje, calada e gentil, era a mais obediente.
Gustavo apertou os lábios, tirou repentinamente uma pequena caixa do bolso do casaco e a empurrou na direção dela:
— Isso é para você.
— Meu assistente recomendou, disse que está muito na moda ultimamente.
Célia abriu a caixa; lá dentro havia um par de brincos com pingentes cor-de-rosa, de estilo delicado.

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