— Não, acabei de sair. Estou no carro voltando para o centro. — O tom de Bianca tornou-se um pouco mais sério. — Marcelo, preciso te contar uma coisa.
— Pode falar.
— Quando estávamos na clínica de repouso agora pouco, minha mãe recebeu uma ligação da capital.
— Disseram que um casal de meia-idade apareceu de repente no hospital, encontrou o quarto da Wilma e afirmou ser os pais biológicos dela. — A voz de Bianca abaixou um pouco. — Disseram que queriam fazer o teste de compatibilidade para salvar a filha, e até causaram um tumulto lá fora.
— Os pais biológicos da Wilma? — O olhar de Marcelo se estreitou, lembrando-se das informações que havia descoberto quando investigou Patrícia.
— Isso. Minha mãe e meu pai acham que esse casal que apareceu de repente é muito suspeito. Eles desconfiam que os dois possam estar envolvidos na minha troca no passado, ou que, pelo menos, saibam de algo.
— Por isso, eles decidiram me levar para a capital hoje à noite mesmo, aproveitando que meu trabalho não está tão corrido ultimamente. — A lógica de Bianca era muito clara. — Primeiro, para conhecer esse casal e entender toda a história do que aconteceu no passado; segundo, porque minha mãe quer que eu passe um tempo na capital para me acostumar com o ambiente, conhecer meu avô e os outros parentes.
— As passagens já estão compradas. Nosso voo sai às oito da noite. — Ela fez uma pausa e acrescentou.
Oito da noite.
Iriam hoje mesmo.
Para a capital.
Passar um tempo.
O coração de Marcelo ficou ainda mais apertado e vazio.
Como esperado.
Exatamente como ele havia previsto.
Patrícia ia levar a filha de volta à capital, de volta ao território da Família Lacerda. Esse "passar um tempo" muito provavelmente seria o começo de uma mudança definitiva.
— Marcelo? — Bianca chamou, percebendo o silêncio dele.
— Sim, estou ouvindo. É o mais sensato a se fazer. Entender o que aconteceu no passado é muito importante, e vai ser bom você ir à capital. Lá é a sua casa.
Ele se comportou de maneira impecável, como um marido compreensivo que pensava inteiramente no bem-estar da esposa.
Ele se levantou lentamente, caminhou até a janela e observou a vegetação exuberante do jardim lá fora.
Fofo, parecendo perceber que o humor de seu dono não estava bem, levantou-se de sua cama, caminhou até os pés dele e esfregou a cabeça em sua perna.
Marcelo inclinou-se e acariciou a cabeça de Fofo.
— Ela vai embora. — Ele murmurou, sem saber se dizia aquilo para o cachorro ou para si mesmo.
Neko também pulou de seu arranhador, sentou-se na frente dele e o observou silenciosamente com seus olhos felinos.
A casa ainda guardava o cheiro dela, o gato que ela adotara e o cachorro que ela tanto adorava.
Mas ela, em breve, voaria para outra cidade, de volta ao seu verdadeiro lar.
Lá estariam seus parentes de sangue, o luxo e o poder que sempre foram seus por direito. Quem sabe, até pretendentes jovens e bonitos que combinariam muito mais com ela.
E ele, foi deixado para trás.

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