O celular escorregou das mãos de Bianca e caiu no tapete com um som abafado.
Ela congelou no lugar, com os olhos arregalados.
Patrícia e Gabriel também ouviram e paralisaram no mesmo instante.
Faleceu?
Do outro lado da linha, a voz pesada do funcionário continuou.
— Por esse motivo, o seu processo de doação de células-tronco está encerrado a partir deste momento. Não será mais necessário dar entrada no hospital, nem realizar qualquer procedimento médico. Senhora Correia, compreendemos profundamente toda a sua preparação e dedicação para esta doação. Somos imensamente gratos por isso e expressamos as nossas mais sinceras condolências pelo trágico falecimento do paciente. A vida é imprevisível; sinta muito pela perda e cuide bem da sua saúde...
Bianca já não conseguia ouvir o que foi dito depois.
Um zumbido tomou conta de seus ouvidos.
Ela se agachou lentamente e pegou o celular.
— Eu entendo. Obrigada por me avisar.
Patrícia voltou a si, tirou o celular da bolsa e discou um número.
— Alô? Senhora Lacerda. — Era o segurança que guardava a porta do quarto de Wilma.
— Como a Wilma está?
— A senhorita Wilma? Ela acabou de terminar o tratamento de hoje. Teve uma febre leve, mas o médico já a examinou e a medicou. Agora ela está dormindo. Senhora Lacerda, como estão as coisas por aí...
— Não é nada. Cuide bem dela. — Patrícia desligou.
Não era Wilma.
O estranho que sua filha ia salvar não era Wilma.
Ao mesmo tempo, uma vida havia se apagado.
Bianca continuava agachada, apertando o celular com a tela já apagada em suas mãos.
Estava de cabeça baixa, com os cabelos longos caindo sobre o rosto, escondendo sua expressão.
Não era Wilma.
Era apenas um desconhecido.
Um estranho que ela poderia ter salvo, mas que, no fim, não conseguiu esperar.
Um enorme vazio invadiu o seu coração.
A pessoa que precisava da sua ajuda não estava mais lá.
— Filha. — Patrícia a chamou com a voz trêmula, querendo se aproximar, mas sem coragem.
Gabriel também se levantou e foi até Bianca. Tentou ajudá-la a levantar, mas parou a mão no meio do caminho.
Bianca ergueu a cabeça devagar.
Patrícia e Gabriel trocaram um olhar e sentaram-se ao lado dela com todo o cuidado, nem muito perto, nem muito longe.
A postura deles era de extrema humildade. Tinham um histórico familiar ilustre, carreiras de sucesso e tudo o que uma pessoa comum jamais conseguiria alcançar.
Porém, diante de Bianca, eram apenas dois pais comuns, perdidos e tomados pela culpa por terem deixado sua filha desaparecer.
— Gostariam de almoçar aqui em casa? — Bianca tomou a iniciativa de quebrar o gelo. — A Graziela cozinha muito bem. Vocês podem provar a comida caseira de São João.
— Sim. — Patrícia concordou rapidamente com a cabeça. Qualquer lugar estava ótimo, desde que pudesse passar mais tempo com a filha.
Gabriel também soltou um suspiro de alívio.
O clima do almoço foi muito mais tranquilo do que o esperado.
O tempero de Graziela era, de fato, excelente. A mesa farta com pratos caseiros típicos de São João era um espetáculo de cores, aromas e sabores.
Após a refeição, Patrícia e Gabriel sentaram-se no sofá da sala de estar, enquanto Graziela servia frutas frescas e um chá suave.
Fofo cochilava aos pés de Bianca, e Neko pulou no braço do sofá ao lado de Patrícia, avaliando-a, antes de encontrar um lugar confortável no colo dela e se enroscar como uma bola.
Patrícia ficou um pouco tensa, parecendo não estar acostumada com tanta proximidade com um gato. Mas ao notar o olhar da filha, relaxou imediatamente e estendeu a mão, hesitante, para acariciar o pelo longo e macio nas costas de Neko.
— Filha. — Patrícia olhou para ela. — Mãe... Posso me chamar assim na sua frente?
Bianca, que estava descascando uma tangerina, pausou o movimento e ergueu o olhar.
Patrícia e Gabriel a observavam com a mesma ansiedade e anseio nos olhos.

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