As palavras seguintes de Otávio deixaram Bianca um pouco irritada.
— Marcelo é dez anos mais velho que você, vocês são de mundos completamente diferentes. Se ele se casou com você, com certeza tem segundas intenções. Com a idade, a posição e o status dele, seria a coisa mais fácil do mundo te enganar.
O semblante de Bianca esfriou. Ela já tinha uma boa ideia de quem fora o remetente do e-mail anônimo alertando-a para tomar cuidado com o marido.
Sempre havia alguém que, sob o pretexto de se importar, ultrapassava os limites.
Felipe era assim, e Otávio também.
— Senhor Duarte, esse é um assunto pessoal meu. Marcelo é o meu marido, e eu sei muito bem que tipo de pessoa ele é. Quanto a ele ter segundas intenções ao se casar comigo, isso é algo a ser resolvido apenas entre nós dois. Não preciso que pessoas de fora se preocupem com isso.
O rosto de Otávio empalideceu levemente, e um traço de dor cruzou seu olhar.
— Você confia tanto assim nele? — Ele deu um sorriso amargo. — Bianca, você é ingênua demais. Como alguém como o Marcelo, implacável e de sangue-frio no mundo dos negócios, poderia nutrir sentimentos verdadeiros por alguém?
Bianca se levantou e olhou para a bolsa de soro; ainda restava mais da metade.
— O médico disse que você deve ficar em observação por duas horas, e se estiver tudo bem, receberá alta.Eu ficarei aqui até acabar o soro. Depois, vou direto para a rodoviária. Senhor Duarte, descanse e pare de falar.
Tendo dito isso, ela se sentou novamente, pegou o celular e não olhou mais para ele.
Adotou uma postura estritamente profissional, delineando limites claros.
Otávio olhou para o perfil frio de Bianca, ciente de que suas palavras haviam cruzado a linha e a magoado.
O impulso e a coragem trazidos pelo álcool se dissipavam lentamente, dando lugar ao arrependimento e à impotência.
Ele fechou os olhos e ficou em silêncio.
Bianca olhava para o celular, mas, na verdade, não estava absorvendo uma única palavra.
Após sua última conversa com Marcelo, ela percebeu que ele já a levava muito em consideração.
Os beneficiários não precisavam conhecer toda a verdade.
O status dela e de Marcelo já era desigual desde o princípio. Se ela ainda exigisse o coração dele, estaria sendo gananciosa demais.
Assim como ela não questionaria se o fato de Otávio beber em seu lugar fora apenas a proteção de um superior para com um subordinado, ou se escondia outros sentimentos.
— Não. — Ela desviou o olhar. — O meu marido nunca beberia a ponto de parar no hospital.
Ela disse isso com muita naturalidade, com um traço de defesa do qual nem sequer tinha consciência.
Felipe ficou atônito por um instante, e então forçou um sorriso no canto dos lábios, um sorriso que era um tanto amargo, mas ao mesmo tempo resignado.
— Parece que você e o seu marido estão se dando muito bem.
Bianca não prolongou o assunto, apenas o observou em silêncio.
— Eu... — Felipe abriu a boca, parecendo querer dizer algo, mas as palavras ficaram presas.
Ele levantou a mão e afrouxou a gravata, frustrado. Era a mesma gravata que usara no casamento, vermelha escura com texturas sutis.
— A Glória e eu nos casamos. O casamento foi grandioso, todos disseram que fomos feitos um para o outro. Eu pensei que ficaria muito feliz por realizar o maior desejo da minha juventude.
Ele fez uma pausa, olhando nos olhos de Bianca.
— Mas, depois que a cerimônia acabou, não me senti tão feliz assim. A verdade é que eu senti vontade de fugir.

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