A chuva estava forte demais e havia poças acumuladas em muitos lugares. Júlia caminhava aos tropeços, afundando os pés na água a cada passo.
Com o acidente, nem a polícia nem o motorista chegariam tão cedo. Por sorte, logo após a Rodovia do Mar começava a estrada nacional, onde haveria mais movimento de veículos.-
Um Bentley negro aproximou-se lentamente por trás. O vidro traseiro abaixou, revelando os olhos gélidos de Thiago.
— Entre no carro.
— Não precisa. — Júlia continuou andando sem parar.
O Bentley acompanhava o seu ritmo.
— Está esperando que eu te carregue para dentro?
Júlia estacou.
— O Sr. Mendes ainda não riu o suficiente da minha cara? Quer que eu entre no carro para continuar assistindo?
— Sim, então pare de falar besteira.
— Você! — Júlia sentiu-se como se estivesse nua, tendo a sua pior versão completamente exposta à pessoa que ela menos desejava que a visse assim.
Um dentro do carro e outro fora, os dois se encararam.
Após alguns segundos de impasse, Thiago falou:
— Não quero que a polícia me procure amanhã, dizendo que fui a última pessoa a te ver antes de você morrer.
Júlia ficou em silêncio por um momento, abriu a porta e entrou.
Um paletó foi jogado sobre a cabeça dela, trazendo um suave aroma de madeira fria, exatamente como muitos anos atrás.
Ela puxou a peça, fazendo menção de devolvê-la a Thiago.
— Obrigada, não estou com frio.
— Vista isso. Se você morrer no meu carro, para quem eu vou dar explicações? — A aura ao redor dele era ainda mais fria que a noite chuvosa lá fora.
Júlia não quis discutir com ele.
— Para o hospital. — Ordenou Thiago ao motorista.
— Não precisa, apenas me deixe na estação de metrô mais próxima. — Júlia encolheu-se com os braços cruzados no canto perto da porta.
Thiago a ignorou e, claramente, ninguém no carro daria ouvidos a ela.
O aquecedor do carro estava ligado no máximo, dissipando o frio de seu corpo.
O espaço entre Júlia e Thiago era grande o suficiente para acomodar outras duas pessoas.
No meio do silêncio sepulcral, o toque de um celular soou. A tela do aparelho dela, já danificada pela água, piscava fraca, mas continuava a tocar teimosamente.
Depois de um bom tempo tentando, ela finalmente conseguiu atender. A voz do motorista veio do outro lado.
— Senhora, encontrei o seu carro e a polícia também chegou. Onde a senhora está?
— Aquela cantora brasileira que estreou no País H nos últimos dois anos?
— Ela está na sala de procedimentos, todos os médicos de plantão foram para lá.
— Nossa, ela deve ter se machucado muito.
— Ah, foi só um arranhão no braço. Se demorassem mais um pouco para chegar, já teria cicatrizado sozinho. Mas o namorado dela é muito atencioso, tratou como se fosse algo grave.
As vozes das duas foram desaparecendo ao longe, e Júlia apertou as mãos com força.
Era difícil acreditar que Samuel, que sempre tratava tudo com leveza, tomaria uma atitude tão despropositada.
Na verdade, a tão falada "estabilidade emocional" não existia; era apenas falta de amor.
Ao seu lado, o rosto de Thiago estava frio como gelo. Ele virou-se para o assistente e disse:
— Ligue para o diretor do hospital.
— Deixa para lá. — Júlia respirou fundo, tentando manter a voz o mais calma possível. — Eu não tenho nada grave.
— Se quiser morrer, escolha outro momento. E não apareça na minha frente antes disso. — Thiago respondeu com um tom indiferente.
Júlia cerrou os dentes.
— Fique tranquilo. Antes de morrer, vou deixar um testamento garantindo que o Sr. Mendes não tem absolutamente nada a ver com isso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Despertar da Esposa Desprezada