A porta se abriu por dentro e uma enfermeira saiu segurando uma bandeja. A sala estava vazia, não havia mais ninguém lá.
Samuel congelou de surpresa.
— O Professor Almeida está tão interessado nas minhas companhias. Deixou de estudar Tao Yuanming para pesquisar sobre a natureza humana? — Alfinetou Thiago.
Ao ver a clara impaciência no rosto dele, Samuel não ousou forçar mais a barra.
Embora as famílias Almeida e Mendes fossem forças equivalentes na Capital Norte, desde que Thiago assumira o comando, seus métodos tornaram-se cada vez mais cruéis.
Quanto à relação de "irmãos", não passava de uma brincadeira nos círculos sociais.
— Desculpe-me. — Ele se desculpou e virou-se para sair.
Ele também se acalmou. Júlia tinha uma origem comum. Como duas pessoas de mundos tão opostos poderiam ter qualquer tipo de ligação?
E assim que ele desapareceu na esquina, Júlia se aproximou pela direção oposta.
Thiago recolheu o olhar e fixou-o nela.
— E então, já morreu?
Júlia ergueu a cabeça e o encarou.
— Você quer tanto assim que eu morra?
— Alguém tão estúpida quanto você só serve para desperdiçar recursos médicos.
O ar pareceu congelar.
Após um instante, Júlia assentiu palidamente.
— Vou tentar atender ao seu desejo o mais rápido possível.
Dito isso, começou a caminhar em direção à saída do hospital.
Ao lado deles, Paulo começou a explicar:
— O ferimento na testa é um pouco profundo, mas aplicando a pomada nos horários certos não haverá problema. Além disso, ela tem uma leve concussão e precisa descansar.
— E quem te perguntou? — Thiago retrucou com o rosto sombrio e saiu a passos rápidos.
Paulo: "..."
Se você não perguntou, por que estava encarando os resultados dos exames na minha mão?
.
Assim que Júlia cruzou a porta da emergência, foi jogada sem a menor cerimônia para dentro do carro por Thiago.
Na verdade, ele nem precisava tê-la puxado. Depois de uma chuva tão forte, seria impossível encontrar um táxi. Além do mais, a pouca dignidade que lhe restava já havia sido esmagada por ele, então o que era mais isso?
Ao chegarem ao Residencial Enseada Azul, a casa onde morava com Samuel, Júlia empurrou a porta do carro com movimentos automáticos.
— Obrigada.
— Letícia e Samuel já se relacionavam em segredo há cinco anos. — O tom de Thiago era tão indiferente quanto se estivesse comentando sobre o clima.
O corpo inteiro de Júlia estremeceu.
[Ah, e ele comeu o bolo que eu comprei. Você pode preparar algum remédio para o estômago dele?]
Júlia não tinha vontade de responder, mas as mensagens continuavam chegando, uma após a outra. Eram todas pedidos de desculpas, dizendo o quanto ela fora insensível e o quanto se sentia culpada.
A etiqueta parecia impecável, mas causava uma náusea em Júlia, como se ela tivesse engolido uma mosca.
Com as mãos tremendo, ela digitou a resposta:
[Um serviço tão ruim de pós-venda, não inclui o pacote completo?]
O mundo, finalmente, ficou em silêncio.
.
A noite estava avançada e quieta.
Ouviram-se os sons de um carro do lado de fora. Pouco depois, a porta foi aberta. Ele entrou no banheiro e, logo em seguida, veio o som da água corrente.
Júlia puxou a coberta, a mente em um turbilhão caótico.
Até que a porta do banheiro se abriu e um aroma suave de sândalo se espalhou pelo ar.
Samuel deitou-se do outro lado da cama.
Ela mal podia sentir a presença dele, afinal, caberiam facilmente duas ou três pessoas no espaço entre os dois.
Ele agia assim desde o começo do casamento.

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