Ele ou dormia no alojamento da universidade ou chegava em casa e adormecia imediatamente. Durante esses três anos, a atitude mais íntima que haviam tido foi dar as mãos.
Ele dizia que estava de luto pela família e não poderia passar dos limites.
Na época, ela chegou a estranhar. Em pleno século vinte e um, ainda existiam tradições desse tipo? Mas, de alguma forma, ela acreditou.
Que exemplo de neto devoto.
Pelo verdadeiro amor, ele conseguiu guardar-se puro por três anos.
Júlia virou-se e deslizou a mão para dentro do pijama dele.
Sem qualquer ritmo e desprovida de qualquer desejo, seus dedos se moveram pela cintura dele de forma ousada e impiedosa.
A respiração de Samuel falhou, ele agarrou a mão dela, com a voz rouca:
— Júlia.
Foi como se ela tivesse recebido um balde de água fria. Virou-se de costas na cama, rangendo os dentes de dor.
O movimento havia afetado o ferimento em sua testa.
Felizmente as luzes estavam apagadas e ele não pôde ver.
E mesmo se visse, ele não se importaria.
Samuel estabilizou a respiração por alguns segundos e levantou-se:
— Falta apenas um mês para completarem-se os três anos desde a morte do meu avô. Depois disso, seremos um casal de verdade, ok? Estou exausto hoje, vou dormir no quarto de hóspedes.
Sem esperar a resposta de Júlia, ele se levantou da cama e caminhou em direção à porta.
— Samuel. — Assim que a mão dele tocou a maçaneta, ela o chamou. — Vou te fazer só uma pergunta: o que você fez hoje à noite?
— Estava acompanhando os superiores. — Samuel respondeu sem hesitar e saiu, fechando a porta em seguida.
No quarto completamente escuro, Júlia fitou a tela do celular, onde lia-se a mensagem enviada por Letícia há três minutos: [Júlia, será que você entendeu errado? Entre mim e o Samuel não existe nada.]
Um sorriso cínico curvou os lábios de Júlia.
Se não houvesse nada, por que a necessidade dele mentir?
Ela atirou o celular para o lado como se livrasse de algo sujo. Levantou-se, foi até o banheiro, abriu a torneira e lavou as mãos três vezes, limpando cada canto.
O pensamento de que o corpo dele havia tocado outra mulher, ou talvez até coisas mais imundas, dava-lhe repulsa.
Mesmo que ele não a tivesse parado, ela também não continuaria. Tudo o que ela queria era arrancar aquela máscara de hipocrisia do rosto dele.
Mas ver a aparência imaculada que ele se esforçava para manter só a fazia sentir um tédio profundo.
— Vou ligar para perguntar. — Disse Júlia.
Mas Luciana parecia ter algo entalado na garganta:
— Te enviei um link. Dê uma olhada primeiro.
A manchete dizia: "Show de estreia de Letícia Barros no retorno ao país. Namorado misterioso, que é professor, promoverá uma queima de fogos em sua homenagem, resgatando a lendária técnica perdida de 'Luar Azul'".
O "Césio Especial" era justamente a matéria-prima vital para criar o "Luar Azul".
O artigo só faltou gritar, em letras maiúsculas, as palavras "Samuel Almeida".
Júlia apertou o celular, os dedos entorpecendo aos poucos.
Por esse lote de Césio Especial, ela tinha passado dias inteiros acompanhando a mãe de Samuel, jogando baralho, fazendo compras e assistindo a peças teatrais. Ela dera inúmeros sorrisos forçados e distribuíra baldes de palavras amáveis.
Como o pai de Samuel era tão ocupado que ninguém o via, e Samuel dizia não se envolver nos negócios da família e não poder ajudá-la, a única saída fora tentar agradar a sogra.
Todo o seu esforço constante, sorrindo e se rebaixando para quem não lhe dava a mínima, só para conseguir aquilo.
E, no fim das contas, ele pegou tudo de bandeja e deu para fazer a sua velha amante sorrir.
Júlia fechou os olhos, fincando as unhas nas palmas das mãos, tremendo incontrolavelmente.

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