Seu cliente não lhe daria todo esse tempo.
Em vez de chorar e fazer escândalo, seria mais sábio conseguir algo de útil para si mesma.
Afinal, os tratamentos médicos de seu pai requeriam muito dinheiro.
Dona Linda trocou de roupa e entrou na cozinha. Ao deparar-se com a refeição intocada sobre a mesa, soltou um longo suspiro.
— O jovem mestre não voltou ontem de novo?
— Dona Linda, não precisa preparar o café da manhã. — Júlia levantou-se e foi em direção ao andar de cima, com a voz sem ânimo.
— Senhora, não seria melhor ir ao hospital dar uma olhada nisso?
— Não é necessário.
Após trocar de roupa, Júlia pegou os papéis do divórcio e a procuração e deixou a casa. Estava a caminho do Grupo Almeida quando, na metade do trajeto, recebeu uma ligação de Letícia:
— Júlia, vamos nos encontrar.
— Não há necessidade. — Disse Júlia.
— Você não quer saber o verdadeiro papel que desempenha no seu casamento?
Júlia hesitou por um momento.
— O endereço.
O ponto de encontro era um restaurante ocidental muito discreto e privado.
Quando chegou à sala privativa, Letícia já a aguardava.
Trajava um delicado vestido de primavera cor-de-rosa, com uma aura gentil que a fazia parecer uma fada inatingível.
— Três anos sem nos vermos, você está mais bonita. — Letícia levantou-se para cumprimentá-la.
Júlia sentou-se à sua frente.
— Não temos motivo para ficar lembrando os velhos tempos.
— Por causa do meu irmão, Samuel e eu nos conhecemos desde pequenos, e começamos a namorar cinco anos atrás. Mas a família dele não aceitou. O lema da família Almeida dita que é melhor casar com uma mulher pobre do que com alguém da indústria do entretenimento. — Letícia pousou a taça de água e abriu um sorriso doce. — Mas em mais dois anos, deixarei a vida de artista.
Então ela era a tal mulher pobre.
Ele casou com ela apenas para manter o título de "Sra. Almeida" ocupado, e assim evitar que o forçassem a se casar com outra. Quando o grande amor dele deixasse os palcos e estivesse pronta, ela simplesmente devolveria o seu lugar.
Além do mais, por ser de origem simples, era fácil de dispensar.
Júlia estava ali sentada, de rosto impassível, embora cravasse as unhas profundamente na palma de sua mão.
— Não, você só se importa demais. — Júlia pegou a bolsa e, mantendo as costas retas, virou-se e foi embora sem olhar para trás.
Samuel acompanhou-a com os olhos, e pelo breve momento em que ela dera meia-volta, ele pôde vislumbrar algo que parecia uma gaze em sua testa.
Ela estava machucada?
Seu pomo de adão saltou. Estava um tanto inquieto, tentado a segui-la para ver se havia se ferido. Atrás dele, contudo, Letícia o deteve.
— Samuel, você se importa com ela?
— O erro foi meu. — Samuel a encarou e perguntou de repente. — Quando o seu irmão volta?
A voz de Letícia falhou ligeiramente.
— Se o meu irmão voltar, você vai me abandonar?
— Eu te prometi naquela época que, independentemente com quem casasse, não a tocaria por três anos, e mantive a minha palavra. — Samuel enxugou uma lágrima no canto de seus olhos. Seus dedos eram gentis, porém desprovidos de calor. — Contudo, é apenas isso.
Sem mais palavras, ele virou-se e a deixou.
Letícia enterrou as unhas pontiagudas na própria pele.
Três anos... Como isso poderia ser suficiente?

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