Exatamente um mês depois, o universo resolveu cobrar a conta da ansiedade de Valério. Seria o parto de Vittória, para dar à luz não um, nem dois, mas três bebês de uma só vez.
Na sala de espera da maternidade, a cena parecia um teste de resistência do piso. Valério andava de um lado para o outro com tanta intensidade que estava prestes a cavar um poço artesiano no linóleo. Ao seu lado, a comitiva de apoio tentava manter a calma: sua mãe, Elisabetta, abanava-se como se estivesse no meio do Saara; seu avô Donato olhava o relógio a cada dois segundos; e os pais de Vittória travavam uma batalha silenciosa para ver quem roía as unhas mais rápido.
A porta dupla se abriu com um estalo dramático. O médico surgiu na recepção, ajustando os óculos com uma calma quase provocativa.
— Sr. Moretti? A sua esposa está exigindo a sua presença na sala de parto. Se o senhor quiser entrar e assistir a cesariana, pode ir para a sala de paramentação se vestir e fazer a esterilização. O espetáculo vai começar.
Valério engoliu em seco. Ele tinha pavor absoluto de qualquer procedimento médico e a coisa mais sangrenta que já tinha visto na vida fora um corte de papel. Mesmo assim, movido por uma mistura de amor, adrenalina e puro pavor de contradizer sua mulher no parto, correu para a área de higienização.
A cena do vestiário foi um show à parte. Valério lutou contra o avental descartável, quase prendeu a cabeça na touca cirúrgica e colocou as proptetoras de pé como se fossem luvas, até que um enfermeiro piedoso o ajudou a se arrumar. Devidamente fantasiado de cirurgião, ele entrou na sala de cirurgia pisando em ovos.
A equipe médica parecia uma orquestra sincronizada. Vittória estava pronta, entre respirações profundas e olhares fuzilantes. Valério se aproximou com a firmeza de uma gelatina, pegou a mão da esposa, deu-lhe um beijo trêmulo na testa e soprou com a voz duas oitavas acima do normal:
— Querida... vai ficar tudo bem. Daqui a pouco estaremos com o nosso time de futebol society nos braços.
A cesárea começou. Em poucos minutos, o silêncio da sala foi quebrado pelo primeiro choro estridente. O primeiro menino chegou (Luca) mostrando a que veio. Logo em seguida, o segundo garoto ( Andreas) fez sua estreia. Por fim, a caçula da trupe (Aurora) foi retirada, completando o trio.


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