O relógio na parede do apartamento de Juliana mal marcava seis e quarenta da tarde, mas ela já parecia pronta para desfile na Semana de Moda de Milão. Maquiagem impecável, salto agulha que ameaçava furar o piso de taco e um vestido que gritava "estou incrível e sei disso”.
Isabel, com uma caneca de café pela metade e um coque malfeito na cabeça, piscava devagar, tentando processar a cena.
— Ju... me diz que eu entendi errado.
Soltou Isabel, apoiando os cotovelos no balcão da cozinha.
— Você vai mesmo dar uma segunda chance para o senhor Nicola "Problema Em Pessoa" Moretti? Mulher, juízo! Não quero ver você juntando os pedaços do seu coração de novo. E não se esqueça do pequeno "detalhe": o homem agora vem com combo. Ele tem uma filha.
Juliana deu um último toque no batom vermelho em frente ao espelho do corredor, virando-se com a plenitude de quem tinha tudo sob controle.
— É a última chance, Isa. A derradeira. E relaxa, eu não entrei nessa de olhos fechados. Impus uma lista de condições que faria qualquer advogado contratual chorar de inveja. Ele vai ter que ralar muito para provar que mudou e que merece meu amor de volta. Quanto à bebê... a pequena vai morar na Mansão Moretti, sob os cuidados do seu Donato e dos avós. Foi um pedido especial do matriarcado e do patriarcado da família. O Nicola vai ser um pai presente, claro, mas a responsabilidade da criação diária não é minha.
Isabel soltou uma risadinha nervosa e deu mais um gole no café.
— Ah, claro! Porque dinâmicas de famílias milionárias e cheias de segredos sempre funcionam perfeitamente na prática, né? Ju, pensa no futuro. Essa garota vai crescer! E se ela resolver entrar na fase da rebeldia adolescente e culpar você por tudo? Sem contar a questão da herança. Se você tiver um filho homem, pelas regras arcaicas do Grupo Moretti, ele vira o herdeiro principal. Isso é um prato cheio para uma guerra civil familiar! E se a garota puxar o gênio duvidoso da mãe biológica... amiga, você está lascada em escala industrial.
Juliana respirou fundo, desfazendo a pose por um segundo, mas manteve a postura firme.
— Eu pensei nisso tudo, Isa. Mas a menina é uma criança, totalmente inocente nessa história toda. Quem ela vai se tornar depende da educação que os Moretti vão dar a ela. Torço de verdade para que cresça uma pessoa amorosa e de bom coração, porque é assim que pretendo criar meus filhos. Agora... se ela puxar a maldade da mãe, aí a conversa é outra. Eu posso ter paciência de santa hoje, mas vira-lata mexeu com meus filhos futuros, eu viro uma leoa.
— Nisso eu não tenho um pingo de dúvida.
Riu Isabel.
— Deus tenha piedade de quem cruzar seu caminho.
O som agudo e estridente do interfone cortou a conversa, fazendo as duas levarem um susto. Isabel atendeu e, com um olhar dramático, deu o veredito: o cavalheiro da Ferrari vermelha já estava no térreo.


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