A noite do mesmo dia da partida de Caterina parecia desenhar o cenário perfeito para a tempestade que se aproximava. Nicola Moretti não tentou burlar a segurança ou invadir o edifício, como fizera em outros dias. Ele parou no saguão, a postura rígida sob o sobretudo molhado, e pediu ao porteiro que interfonasse. A voz saiu firme, carregada de uma urgência quase desesperada: precisava falar com ela.
No apartamento, quem atendeu o chamado foi Isabel. Ao ouvir o nome do visitante, seu rosto se contorceu em indignação.
— Diga ao Sr. Moretti que ele não está autorizado a subir.
Disparou, sem hesitar.
— A minha amiga não tem mais nada para conversar com ele.
Antes que o porteiro desligasse, Juliana avançou e tomou o aparelho das mãos de Isabel. O peito descompassado desmentia sua aparente calma.
— Pode autorizar a entrada dele.
Ordenou, com a voz embargada.
Isabel a encarou, horrorizada.
— Ficou maluca, Juliana? Por que deixou esse homem subir? Ele vem aqui só para mentir de novo!
— Eu preciso encarar isso, Isabel. Quero ouvir o que ele tem a dizer, preciso entender até onde vai a audácia dele.
— Tome cuidado, por favor.
Alertou Isabel, segurando as mãos da amiga com firmeza.
— Você é apaixonada por ele, e ele sabe disso. Não deixe esse sentimento cegar a sua razão. Aquele homem já arrancou pedaços do seu coração, não permita que ele faça você sofrer de novo.
— Eu sei me cuidar.
Murmurou Juliana, tentando convencer a si mesma.
— Assim espero. Boa sorte, porque eu vou me trancar no meu quarto. Não aguento nem olhar para aquela cara perfeita dele. De que adianta ser um deus grego se é um canalha completo? Qualquer coisa, só me gritar que eu venho com o pau de macarrão na mão.
Juliana soltou um riso fraco, sem humor, enquanto ouvia o som da porta do quarto se fechar.
Poucos minutos depois, a campainha ecoou pelo apartamento como uma sentença. Juliana respirou fundo, ajustou a postura e abriu a porta. Nicola estava parado no corredor, a gravata desalinhada e os olhos cinzentos marejados por uma tensão palpável.
— Boa noite, Juliana. Obrigado por me receber.
Disse ele, a voz baixa, quase suplicante.
Ele entrou sem esperar convite formal. Sentaram-se no sofá, mas a distância entre eles parecia abissal. Nicola se aproximou e segurou a mão de Juliana com sofreguidão. O calor do toque dele ainda provocava arrepios nela, uma reação física que a irritava profundamente.
— Eu sinto muito por tudo.

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