Na quinta-feira, o ponteiro do relógio de carvalho da sala principal cravou as dezenove horas. Quase no mesmo segundo, o eco dos saltos agulha de Caterina rompeu o silêncio pesado da mansão. Ela cruzou o hall sem pedir licença, o perfume floral preenchendo o ar enquanto exibia um sorriso radiante, ignorando a penumbra que dominava o ambiente.
— Amor, você precisa ver como o quarto do nosso bebê ficou impecável!
A voz dela soava expansiva, vibrando pela imensidão dos corredores.
— Mas já que estou aqui, precisamos resolver logo a redecoração deste lugar. A mansão é majestosa, claro, mas está completamente antiquada. Quero algo moderno, minimalista... Vamos trocar tudo, a começar por essas cortinas pesadas e sombrias que eu odeio. Quero algo mais na moda.e...
— Caterina. Vamos ao escritório. Agora!
A voz de Nicola não passou de um sussurro firme, mas carregava a densidade do chumbo. Ele sequer se virou para olhá-la.
Caterina piscou, desacelerando os passos. A surpresa desarmou o tom expansivo, dando lugar a um bico manhoso e calculado.
— Aconteceu alguma coisa, meu amor? Por que essa cara? Eu sei que o casamento é sábado agora, mas mantenha a calma, já está tudo pronto.
— Apenas me siga.
O ar dentro do escritório parecia Rarefeito. Nicola contornou a pesada mesa de mogno, virando-se para enfrentá-la. Sem pronunciar uma única palavra de aviso, ele ergueu a mão e arremessou um documento dobrado. O papel cortou o ar e atingiu o peito de Caterina antes de flutuar até o chão.
— Creio que isto pertence a você, minha querida noiva.
Trêmula, ela se curvou para recolher as folhas. Conforme seus olhos percorriam as linhas datilografadas, a cor fugia do seu rosto. A assinatura no rodapé era inconfundível: a sua própria. Tratava-se da solicitação de um empréstimo milionário emitido em favor de seu pai. A única garantia oferecida para salvar a família da ruína era a consolidação do matrimônio Moretti. O vencimento da dívida? O exato dia seguinte à cerimônia de casamento.
O mundo de Caterina ruiu em segundos. O suor frio brotou em sua testa enquanto a máscara de noiva apaixonada se desfazia.
— Nicola... amor, por favor! Eu posso explicar!
— Não, Caterina, você não pode!
Cortou ele, dando um passo à frente, os olhos queimando em fúria reprimida.
— Porque tudo já está às claras. Para conter um rombo financeiro irreversível, você usou o nosso casamento como moeda de troca. Pegou milhões porque seu pai se afundou em muitas engenharias financeiras no mínimo obscuras... Estamos falando de agiotagem pesada e esquemas estruturados de lavagem de dinheiro! Se essa dívida não for liquidada no próximo mês, o escândalo vai varrer o nome da sua família do mapa!

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