O sol mal tinha dado o ar da graça em Milão e Nicola Moretti já travava uma batalha silenciosa contra o próprio celular. Vovó ligando ontem?. Redes sociais explodindo? Com a coragem de quem bebe café requentado de ontem, ele abriu sua rede social e lá estava: o anúncio oficial do término. Juliana Rossi havia postado o comunicado com a frieza de um boletim meteorológico. Prevendo a tempestade, ele desligou o aparelho, vestiu a pose de herdeiro e partiu para o Grupo Moretti.
Ao pisar na presidência pelo elevador privativo, Nicola engatou numa maratona de reuniões tão maçantes que poderiam anestesiar um elefante. A única bênção do dia? Caterina não havia ligado. Quando ele mesmo resolveu ligar, meio sem jeito, só para saber do bebê, a resposta foi um resumido “está tudo bem”. Ufa. Menos um incêndio.
Depois do almoço, Nicola chamou o Dr. Berlusconi o advogado do grupo, cujo nome era temido em toda Italia.
— Pelo visto deu tudo certo ontem, doutor.
Pontuou Nicola, ajeitando a gravata.
— A nota do término ficou perfeita. Ponto para o nosso departamento de RP.
O Dr. Berlusconi limpou a garganta, desconfortável como quem vai entregar uma bomba relógio.
— Sim, senhor Moretti. A senhorita Rossi assinou o distrato do namoro de fachada. Porém... ela recusou o bônus financeiro que o senhor ofereceu.
Nicola franziu a testa, o ego levemente amassado.
— Recusou?
— Nas palavras exatas dela: “O pagamento integral já foi feito e eu não preciso das esmolas do Sr. Moretti”. Senti uma certa... acidez no ar senhor.
Nicola soltou uma risada irônica para disfarçar o golpe.
— Esmola? Que dramática. Se ela prefere ficar sem o dinheiro, o problema é dela. Pode ir, doutor.
Assim que a porta se fechou, a curiosidade falou mais alto. Nicola discou para o celular de Juliana. “Este número está fora de área...”
_ Estranho... O número dá fora de área.
Então discou, o ramal do Departamento de Relações Públicas.
— Viviana? Peça para a senhorita Rossi subir agora na minha sala.

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