No sábado à tarde, o ar no apartamento de Nicola estava denso. Quando abriu a porta, ele deu de cara com Valério, que nem esperou o convite para entrar, já foi invadindo a sala com a cara de quem carrega a fofoca do século e o remorso de uma vida.
— É, meu caro, pela cara de velório que tá na mansão Moretti, a tragédia de ontem à noite foi cinematográfica.
Disparou Valério, tirando os óculos escuros com um drama digno de ópera italiana.
— O vovô nem almoçou. Tá trancado no quarto parecendo um fantasma de Shakespeare. A tia Stella? Misericórdia, tá num choro tão cavernoso que alagou o claustro. A única alimentando a chama da discórdia é a minha mãe, que tá desossando a Juliana sem dó nem piedade. Ainda bem que eu não estava lá pra ver esse show de horrores que você orquestrou. Sério, Nicola... Foi de um requinte de crueldade digno de vilão de novela das oito. Eu tô me remoendo. Se eu soubesse que era a Juliana, uma garota tão boa, que ia virar bucha de canhão nesse seu plano macabro, eu tinha me calado. Me sinto o próprio Judas. Eu preciso ir a Roma me confessar com o Papa para tirar essa culpa.
Nicola soltou um suspiro pesado, esfregando as têmporas como se a voz do primo causasse enxaqueca instantânea.
— Poupe-me do teatro, Valério. A Juliana não é nenhuma mártir indefesa. Ela sabia exatamente onde estava se metendo. Saiu dessa com a conta bancária bem recheada e as dívidas da família liquidadas. Ninguém aqui é virgem vestal nessa história.
Valério deu um passo à frente, encarando o primo com uma mistura de deboche e genuína piedade.
— Primo... do que é feito esse seu peito? De pedra ou de fel? Você ama a Juliana, tá escrito na sua testa em neon, só você que finge que é cego. Destruiu a reputação da garota perante a nossa família toda pra viver uma ilusão que nem existe mais. Só que o feitiço virou contra o feiticeiro, né? Não tem como dar ré no carro agora: você engravidou o seu tal "amor de adolescente". Parabéns, campeão. Pelo menos a Juliana agora tá livre desse seu manicômio.
— Já chega de lição de moral por hoje?
Nicola travou o maxilar, a tensão visível nos ombros.
— Minha mãe esteve aqui cedo e já me encheu o saco para procurar a Juliana.
— Coitada da tia Stella... Achando que o filhinho amado tá definhando de depressão porque levou um pé na bunda da namorada. Se ela soubesse que a bomba foi fabricada pelo próprio filho.
— Não ousa dizer nada.
Nicola deu um passo ameaçador, a voz caindo para um tom perigosamente baixo.

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