A garoa daquela noite manchava o para-brisa do carro com reflexos dourados dos postes da iluminação pública. No interior do veículo, porém, o clima era denso de tensão. Durante todo o trajeto para deixar Juliana e a amiga Isabel em casa, a tela do celular de Nicola acendia sem trégua. O nome de Caterina brilhava na tela como um alerta incessante, acompanhado pelo toque estridente que cortava o silêncio no carro. Impaciente, com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante, Nicola recusava chamada após chamada.
Quando o carro finalmente estacionou em frente ao condomínio de Juliana, o aparelho voltou a vibrar enfaticamente no painel. Juliana, que já estava com a mão na maçaneta pronta para desembarcar, olhou para o visor e depois para ele, soltando um suspiro pesado de cansaço acumulado.
— É melhor você atender, Nicola. Deve ser algo grave para esse desespero todo.
Disse ela, mantendo a voz fria e distante.
— Obrigada pela carona, para mim e para a Isabel.
Nicola mal teve tempo de entreabrir os lábios para responder. Juliana já havia descido junto com sua amiga. As duas bateram as portas com estalos definitivos. Ele encarou a tela que piscava, respirou fundo e deslizou o dedo para atender, sem conseguir disfarçar a irritação:
— Caterina, o que foi agora?
Do outro lado da linha, uma voz embargada e sufocada por soluços dramáticos respondeu quase imediatamente:
— Nicola... por favor, me ajuda! Eu estou passando muito mal... Não consigo nem me levantar da cama. Estou sozinha aqui na cobertura... Por favor, me leva para o médico!
O tom de socorro disparou o alarme no peito de Nicola. Esquecendo a impaciência de segundos atrás, ele engatou a marcha, manobrou o carro na avenida com os pneus cantando no asfalto molhado e partiu em disparada rumo ao apartamento de Caterina.
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No andar de cima do condomínio, de Juliana a porta do apartamento acabará de se fechar. Isabel tirou os sapatos logo na entrada e jogou as chaves sobre o aparador, bufando de indignação.
— Nossa, amiga, que cena ridícula! A viagem inteira aquela mulher insuportável ligando sem parar, feito uma possessiva. Com certeza estava fazendo birra para ele ir passar a noite com ela. Essa Caterina não tem um pingo de amor-próprio, e o Nicola é outro idiota por dar corda!
Juliana caminhou até a cozinha, tirando antes os sapatos e deixando pela sala. Seu olhar carregava uma mistura de exaustão e desgosto.
— Foi um péssimo trajeto mesmo. Na verdade, eu já me acostumei, é sempre essa ladainha... mas admito que hoje ela se superou no desespero.

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