A tarde, Juliana tinha acabado de cometer o grave erro de almoçar. Com a barriga cheia de massa e o cérebro processando a digestão num ritmo dolorosamente lento, ela pisou no departamento de Relações Públicas torcendo para que a tarde passasse de pressa. Foi exatamente nesse momento que o celular em sua mão vibrou com a força de um pequeno terremoto.
No visor, reluzia o nome do tormento diário: Nicola.
Ela deslizou o dedo pela tela e, antes mesmo de conseguir emitir um "Alô?", a voz do homem atravessou o alto-falante como um trovão:
— VENHA À MINHA SALA AGORA!
Tu-tu-tu-tu...
Ele desligou. Nem um "por favor", nem um "boa tarde", nem um "espero que não esteja no meio de um derrame". Nada.
Juliana encarou o celular por cinco segundos inteiros, ponderando se a demissão por justa causa valia a pena. Encarou a tela preta do aparelho e desferiu a sua habitual oração de afeto:
— Grosso! Infeliz! Mandão! Pão-duro emocional!
Com a graciosidade de quem marcha rumo ao corredor da morte, ela se arrastou até o último andar, onde ficava a suntuosa sala da presidência. A porta de madeira nobre era o terror de 99% dos funcionários da empresa diziam as línguas que até o pessoal da limpeza benzia o rodo antes de passar ali perto. Mas Juliana já tinha perdido o amor à vida corporativa há muito tempo.
Sem se dar ao trabalho de bater ou esperar anúncio, ela simplesmente empurrou a porta com o ombro.
Nicola estava atrás da sua mesa gigante, perfeitamente alinhado em um terno que provavelmente custava o PIB de uma pequena nação. Ao ver Juliana da entrada, ele sequer piscou.
— Sente-se!
Ordenou ele, apontando para a cadeira de couro com a caneta montblanc.
— Preciso te passar alguns avisos importantes.
Juliana caminhou até a cadeira, ajeitou a saia e se sentou com uma calma quase provocativa. Cruzou as pernas, apoiou o queixo na mão e encarou o chefe com o olhar de quem preferia estar fazendo um tratamento de canal.
— Sou toda ouvidos! Pode despejar as instituições.
Nicola ajeitou a gravata, incorporando todo o drama de um aristocrata do século XIX.
— Daqui a quinze dias será o aniversário de Henry Salvattore. O grupo Salvattore vai realizar um evento de comemoração astronômico. Toda a elite milanesa estará presente: empresários, duques, influenciadores de alto padrão e pessoas que desinfetam as mãos com água de coco. Então, você, como minha namorada oficial, irá me acompanhar.
— Tudo bem!

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