A tarde de sábado transcorria sob uma atmosfera enganosamente calma no restaurante de vidro e luz fria. As taças de cristal reluziam sobre os panos de prato engomados, emoldurando o encontro de Juliana e sua amiga de infância, Isabel. A comida recém-servida esfriava esquecida sobre a mesa, subjugada pelo ritmo intenso da conversa.
— Então quer dizer que o seu namorado...
Isabel fez uma pausa carregada de sarcasmo, bebericando o vinho.
— Aquele herdeiro mimado e arrogante, simplesmente não vai com a minha cara? Tudo porque me viu naquela boate beijando três caras numa mesma noite?
Juliana soltou um suspiro pesado, o olhar perdido nas bolhas que subiam em sua taça.
— E isso não é nem o pior, Isabel. O pior de tudo é que ele só apareceu naquele lugar para me bisbilhotar. Você acredita? Desde aquele dia, ele não para de repetir que você é uma péssima influência, que eu não deveria sair com você à noite, como se pudesse ditar os meus passos.
— Amiga, esse homem definitivamente não te merece!
Isabel inclinou-se sobre a mesa, a indignação faiscando nos olhos.
— Como alguém acha que tem o direito de proibir uma mulher de ver a própria amiga? Você por acaso lembrou a ele que nós nos conhecemos desde garotas?
— Sim, ele sabe de cada detalhe da nossa história.
Juliana respondeu, a voz falhando ligeiramente no início.
— Ele sabe da nossa amizade... e sabe perfeitamente que você acabou de passar por um divórcio devastador por causa de uma traição.
Ao ouvir a palavra, o semblante de Isabel endureceu. A dor antiga deu lugar a um amargor profundo.
— Uma traição? Não, Juliana, vamos dar o nome certo. Aquele infeliz me enganou por anos. Ele mantinha uma vida dupla, gostava de homens e nunca teve a hombridade de me dizer a verdade. Eu só não consigo entender por que um homem desses decide se casar com uma mulher sabendo exatamente quem é!
— Talvez a família dele jamais aceitasse a orientação dele.
Ponderou Juliana com mansidão, buscando uma explicação racional para a ferida da amiga.
— Pressionaram, exigiram um casamento tradicional e ele simplesmente usou você para cumprir o script da sociedade.
— Com certeza. E no fim, a cobaia fui eu.
Concluiu Isabel, rindo sem humor.

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