O ponteiro do relógio girava como uma sentença impiedosa: faltavam exatos dois meses para o fim do fatídico contrato de namoro falso entre Nicola Moretti e Juliana Rossi. Dois meses para a libertação, ou para a ruína completa.
Ultimamente, contudo, a máscara de frieza de Nicola começara a ruir. A possessividade crua e o ciúme doentio que o dominavam sempre que Juliana sorria para outro homem tornaram-se impossíveis de mascarar. Era um espetáculo assustador de controle perdido. Ainda assim, cego por uma obsessão arcaica e por uma teimosia quase doentia, Nicola continuava a martirizar a si mesmo no altar de Caterina, incapaz de decifrar que a tempestade em seu peito não era raiva... era desejo. Era amor.
Juliana, por sua vez, vivia no epicentro dessa guerra silenciosa. Ela repetia para si mesma, como uma oração de sobrevivência, que o coração daquele homem pertencia, de corpo e alma, a Caterina. No entanto, o ciúme feroz de Nicola a dilacerava por dentro, alimentando uma esperança perigosa. Como escudo contra a própria fragilidade, Juliana ergueu muralhas impenetráveis ao redor de seu peito, tentando resistir ao charme magnético e e destrutivo do empresário. Mas a verdade é que fingir ser a mulher da vida dele era uma tortura refinada, um veneno lento consumido diariamente.
Perante os olhares julgadores da alta sociedade de Milão e o clã implacável dos Moretti, eles atuavam com perfeição impecável: o casal perfeito, ardente, hipnotizante. Mas a farsa cobrava seu preço no instante em que as luzes dos holofotes se apagavam. Bastava o teatro terminar para que o encanto se desfaça brutalmente: Nicola virava as costas, deixando Juliana no frio do abandono, e corria para se refugiar nos braços de Caterina na cobertura de luxo que assombrava os sonhos de Juliana ultimamente.
Nicola era a perfeita tradução de cada desejo que Juliana guardou em segredo durante esses dez meses.
A estrutura imponente. A elegância natural. Os ombros largos que pareciam moldados para carregar o peso do mundo, ou para protegê-la dele. E aquele olhar... um par de olhos magnéticos, perigosos, capazes de desarmar qualquer mulher e fazer seu pulmão esquecer, instantaneamente, como se puxa o ar.
Estar ao lado dele era viver no limite entre o delírio e a obsessão.
Existia, porém, uma ruína no meio daquela perfeição. Um fantasma que destruía Juliana dia após dia.
O coração de Nicola pertencia a outra. Bastava um único toque do telefone, o som estridente de um soluço e a voz trêmula de Caterina do outro lado da linha, para que a máscara de homem inalcançável ruísse. No mesmo segundo, ele largava absolutamente tudo e corria em disparada rumo àquela cobertura, deixando para trás apenas o rastro do seu perfume e o eco doloroso do silêncio para Juliana.
Mesmo enfrentando o caos do seu relacionamento de fachada com Nicola, Juliana não deixava o amargor tomar conta. O nascimento das filhas de Zoe e Antonella trouxe uma onda de frescor e alegria, e ela fazia questão de celebrar cada segundo ao lado das amigas.
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Na semana seguinte, quando Donato Moretti convocou a reunião familiar para a próxima sexta-feira, o recado foi cristalino: presenças obrigatórias na mansão. Sem exceções, sem desculpas. A ordem do patriarca foi tão rígida que até mesmo Valério, acostumado a se esquivar das obrigações da família, foi intimado a comparecer.
A sala da presidência do Grupo Moretti parecia mais o tribunal do júri para Nicola Moretti naquele início de tarde. Sentado em sua poltrona de couro, ele encarava o teto como se ali estivessem as respostas para o seu caos pessoal.
Valério, seu primo (e leal parceiro de infortúnios), entrou sem bater, jogando-se no sofá com a graciosidade de um condenado à morte.
— Tenho péssimas notícias.
Anunciou Valério, dramaticamente.
— Nicola, o vovô exigiu a presença de todo mundo na reunião semanal da família Moretti na mansão nessa sexta. Nem eu, com minhas desculpas esfarrapadas, consegui me salvar.

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