Era plena segunda-feira de manhã no QG do Grupo Moretti, mas o clima na sala da presidência parecia o pós-operatório de uma tragédia anunciada. Valério caminhava de um lado para o outro, gesticulando com o drama digno de uma ópera de Verdi, enquanto seu primo Nicola o observava de trás da imponente mesa.
— Nicola, eu estou te dizendo: aquela Nathalie Mitchell é uma psicopata sexual!
Esbravejou Valério, dramaticamente passando a mão pelos cabelos.
— A mulher quase me matou! Se a Saracura não tivesse aparecido como um fantasma no corredor daquele hotel, eu estaria frito. Liquidado! Minha certidão de óbito seria emitida por exaustão física!
Nicola engoliu em seco, tentando inutilmente conter o riso que ameaçava estourar no seu rosto de executivo sério.
— Bem feito! Perfeito!!
Debochou Nicola, ajeitando a gravata.
— Enfim uma lição! Finalmente surgiu uma mulher para humilhar o único lugar onde seu ego não cabia mais. Eu só espero, sinceramente, que essa sua safadeza desenfreada não mije no contrato entre o Grupo Mitchell e o Grupo Moretti.
— Não, não... Fique calmo, primo. Quanto a isso, zero riscos.
Respondeu Valério, acenando as mãos em pânico.
— Tenho certeza absoluta de que a Nathalie não vai dar um piu. Para ela, aquilo também foi o ápice do vexame. Eu praticamente saí em disparada do quarto, quase de cueca e desespero! O problema foi ter dado de cara com a Vittoria Mancini no meio do corredor. Tive que improvisar na hora e soltar que ela era minha noiva! Olha o nível do absurdo, Nicola! Tive que chamar a Vittoria de minha noiva! E para piorar, tive que dar um beijo nela ali mesmo, na frente da Nathalie, para a ficção parecer convincente.
Nicola encostou as costas na cadeira e soltou uma gargalhada genuína.
— Não posso acreditar... Você beijou a Vittoria Mancini?! Logo você, que passa vinte e quatro horas por dia trocando farpas com a garota? Sendo que ela te odeia mais do que odeia imposto de renda?
Valério soltou um suspiro profundo, o olhar perdido no teto como se reavaliasse todas as suas escolhas de vida.
— Viu só, primo? Olhe a que ponto de degradação eu fui obrigado a chegar por causa daquela maluca!
— Ah, faça-me o favor!

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