Amanda Soares ficou paralisada por meio segundo.
— Como você sabe? — Perguntou ela, completamente surpresa.
José Vieira fechou o notebook à sua frente.
Ele olhou instintivamente pela janela do escritório, virando o rosto exatamente na direção da Cidade G.
— Quando a minha esposa sente a minha falta, ela adora ir para a varanda tomar um pouco de vento. — Respondeu ele com carinho.
O nariz de Amanda Soares ardeu de emoção.
Mas ela forçou um sorriso para disfarçar a vontade de chorar.
— Não seja tão convencido, eu só queria observar as estrelas esta noite. — Retrucou ela.
Dizendo isso, ela virou o rosto para contemplar o imenso céu noturno.
— José Vieira, o céu está repleto de estrelas hoje. — Murmurou ela saudosa. — Está exatamente como daquela vez em que fomos ao topo da montanha ver o nascer do sol.
José Vieira não pôde evitar relembrar daquela ocasião mágica.
Eles haviam escalado a montanha no escuro apenas para ver o amanhecer juntos.
O magnífico rio de estrelas no céu não se comparava à beleza do sorriso deslumbrante dela.
Quão resplandecentes as estrelas estavam naquele dia, José Vieira não sabia dizer com certeza.
Mas a beleza de Amanda Soares naquela madrugada era algo simplesmente impossível de esquecer.
— Sim, é muito lindo. — Concordou ele em voz baixa. — Muito, muito lindo mesmo.
Amanda Soares permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Quando você voltar, me leve de novo ao topo da montanha para ver as estrelas. — Pediu ela com ternura.
— Combinado. — Prometeu José Vieira imediatamente. — Mas desta vez, nós levaremos uma barraca.
Uma barraca?
No segundo seguinte, Amanda Soares compreendeu a insinuação descarada dele.
Suas bochechas coraram levemente.
Ela franziu os lábios em uma falsa reprovação.
Mas preferiu não comentar sobre o fato de a mente dele estar cheia de segundas intenções.
— É uma ótima ideia. — Concordou Amanda Soares suavemente.
Desta vez, foi José Vieira quem ficou completamente sem palavras.
Após um momento de surpresa, ele soltou uma risada genuína.
— É raro a minha esposa compartilhar dos mesmos interesses noturnos que eu. — Brincou ele.
Amanda Soares abaixou a cabeça envergonhada.
Ela encarou as pontas dos próprios pés com os lábios curvados para cima em um sorriso.
Uma lufada de vento a atingiu de repente.
Amanda Soares apertou o casaco em volta do corpo para se aquecer.
Mas, por dentro, seu coração se sentia maravilhosamente acolhido.
Ela percebeu que a saudade não era um vento de mão única soprando no vazio.
Era a sintonia perfeita entre eles que permitia que ele acolhesse todas as suas emoções, mesmo separados por milhares de quilômetros.
Antes de desligar, José Vieira ordenou que ela voltasse logo para dentro do quarto.
Ele não queria que ela pegasse um resfriado por causa do vento gelado.
Amanda Soares foi incrivelmente obediente à ordem dele.
Após encerrar a chamada, ela olhou para as estrelas mais uma vez antes de entrar.
Um sorriso apaixonado se formou inconscientemente em seus lábios.
A brisa agressiva entrava uivando pelas janelas vazias do prédio inacabado e abandonado.
A lufada de ar levantava poeira acumulada e varria o chão de cimento.
José Vieira estava sentado na única e desgastada cadeira de madeira do local.
As pernas da cadeira marcavam levemente a sujeira grossa do piso.
O cigarro entre seus dedos longos já havia queimado até a metade.
A fumaça branca subia em anéis lentos em direção ao teto inacabado.
Ela se dispersava em uma névoa difusa sob a luz pálida do luar.
A fumaça ocultava perfeitamente a frieza assassina no fundo de seus olhos.
José Vieira permaneceu em absoluto silêncio.
Ele apenas estreitou os olhos perigosamente para avaliar o homem ajoelhado no chão à sua frente.
Seu olhar raspou sobre a figura miserável com a aspereza de uma lixa grossa.
As maçãs do rosto do homem estavam extremamente inchadas e deformadas.
Marcas roxas e azuladas severas se estendiam por toda a pele até a mandíbula.
Havia crostas nojentas de sangue seco coladas no rosto dele.
Os óculos, que antes deveriam estar apoiados no nariz como marca de sua profissão, estavam estilhaçados, restando apenas meia armação retorcida.
A poeira fina estava incrustada nas inúmeras rachaduras das lentes quebradas.
A armação avariada tremia levemente acompanhando a respiração ofegante e aterrorizada do homem.
Ele mantinha a cabeça abaixada como um condenado.
O cabelo bagunçado e sujo grudava em sua testa úmida de suor frio.
— Jovem Mestre, eu realmente não sei qual é a situação do patriarca. — Disse ele, com a voz tão rouca e desesperada como se sua garganta tivesse sido esfregada com vidro moído. — Mesmo que o senhor me bata até a morte hoje, não adiantará de nada, eu não sei de nada...

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