O ar no quarto do hospital parecia ter congelado.
Amanda Soares desviou o olhar lentamente para a janela, como se a outra mulher sequer existisse.
— Você acha que eu não tenho coragem? — Molly Gaspar elevou a voz repentinamente, como se tentasse encorajar a si mesma.
No entanto, seus dedos erraram o comando por alguns milímetros e pressionaram o botão de bloqueio.
No instante em que a tela do celular escureceu, ela viu seu próprio reflexo.
Metade de seu rosto estava inchado e vermelho.
O delineador havia escorrido com as lágrimas, deixando um rastro preto.
Ela parecia tão lamentável quanto uma flor castigada pela chuva.
Ela conhecia Miguel Domingos há pouco tempo.
Os sentimentos deles certamente não se comparavam à amizade de infância que ele tinha com Amanda.
Se Amanda Soares invertesse a situação e a acusasse com exageros, Miguel Domingos talvez não ficasse do seu lado.
Amanda Soares observou o dilema estampado no rosto dela e achou a situação quase cômica.
— Já chega. — Disse ela.
Ela se levantou graciosamente, com um leve franzir de testa.
— Eu já disse o que tinha para dizer.
— Se vai ligar, ligue logo; se não, vá embora.
— Isto é um hospital, não um palco para o seu teatro.
Molly Gaspar apertou o celular com força, a ponto de seus nós dos dedos ficarem brancos.
Ela sabia que não ganharia nada ali hoje.
A postura inabalável de Amanda Soares era cem vezes mais difícil de lidar do que o temperamento explosivo de Bárbara Oliva.
Mas ir embora daquela maneira era algo difícil de engolir.
— Amanda, você me aguarde. — Disse ela.
Ela soltou a ameaça e se virou para a porta.
Seus saltos altos batiam com força no chão, como se quisessem extravasar sua raiva.
Ao chegar à porta, ela parou e olhou para trás, fuzilando Amanda Soares com o olhar.
— No dia do meu casamento com Miguel Domingos, quero ver se você ainda terá coragem de me humilhar assim. — Disse Molly.
Amanda Soares a ignorou.
Somente quando Molly Gaspar já estava longe, ela soltou uma risada fria.
Casamento?
Ela era ingênua demais.
Será que uma mulher como Molly Gaspar realmente achava que poderia entrar para a família Domingos?
O tapa de Amanda Soares não havia sido leve.
Mas, para torná-lo mais realista e evidente, antes de Miguel Domingos chegar, ela esfregou o rosto até a pele ficar em carne viva.
Agora, a marca do tapa estava vermelha, inchada e chocante.
Molly Gaspar olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas.
No segundo seguinte, ela se jogou diretamente nos braços de Miguel Domingos.
— Dr. Domingos, eu realmente não sei por quê... por que a Amanda me odeia tanto... — Soluçou ela.
— O quê? Você está dizendo que foi a Amanda que te bateu? — Perguntou Miguel Domingos, surpreso.
Molly Gaspar endireitou o corpo, e as lágrimas de injustiçada não paravam de cair.
— A mãe da Amanda não está doente? — Começou ela.
— Eu estava muito ocupada nos últimos dias, mas hoje consegui um tempo e levei uma cesta de frutas ao hospital para visitar a tia.
— Ela é sua amiga de infância, eu queria me dar bem com ela e não te deixar em uma situação difícil.
— A tia estava dormindo, então tentei conversar com a Amanda.
— Eu queria pedir que ela falasse bem de mim para você.
— Mas eu jamais imaginei que ela diria que eu não sou digna de você.
— Ela me humilhou sem parar.

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