— Ela… deu algum sinal?
Zaqueu se sobressaltou por um instante; em seguida, entendeu e respondeu com respeito:
— Não.
— A Srta. Beatriz ficou estes dias no apartamento da amiga, Clarinda. Fora a ida à família Andrade anteontem, não saiu mais.
— Não chorou, nem fez escândalo? — a voz de Heitor soou áspera. — Não procurou jornalistas? E não… tentou falar comigo?
Zaqueu balançou a cabeça.
— Nada disso.
O pomo de adão de Heitor subiu e desceu.
Ele largou a pasta sobre a mesa, recostou-se na poltrona de couro, puxou a gravata e soltou uma risada quase cruel.
— Hã. Até que enfim aprendeu a se comportar. Soube sumir e parar de incomodar.
Dizia isso, mas a raiva sem nome dentro dele só crescia.
Ele acreditara que sentiria alívio, que ficaria livre.
Então por que o peito parecia ter sido escavado, vazio, com vento frio entrando?
Zaqueu baixou a cabeça, sem ousar responder.
Como assistente de muitos anos, ele sabia: aquele estado do chefe se resumia a duas palavras — teimosia.
Heitor fez um gesto impaciente.
— Pode sair.
Zaqueu saiu como quem recebia perdão.
A porta se fechou, e no espaço enorme restou apenas Heitor.
Ele fechou os olhos, exausto, mas a mente insistiu em trazer o rosto de Beatriz.
Chorando, sorrindo, suportando em silêncio, teimosa…
Até que tudo se fixou na imagem dela no cartório, assinando o nome com um perfil sereno, sem a menor ondulação.
Ele abriu os olhos de repente, agarrou as chaves do carro e saiu a passos largos.
Meia hora depois, a Bentley preta parou diante da casa onde ele e Beatriz moravam — a mansão “Baía Estrela”.
— Atchim!
Beatriz espirrou forte, do nada.
— Quem está falando mal de mim?
Ela esfregou o nariz e resmungou.
Clarinda revirou os olhos e enfiou um copo de leite morno na mão dela.
— Além daquele lixo do Heitor e do pessoal esquisito da família Andrade, quem mais seria? E você ainda por cima tem sangue-frio: voltou de lá e conseguiu dormir.
Beatriz tomou o leite em pequenos goles, o olhar distante.
Depois de sair da família Andrade naquele dia, ela realmente desabara na cama e dormira até o meio-dia seguinte.
Como se quisesse compensar, de uma vez, todo o cansaço dos últimos cinco anos.
Quando acordou, estava leve; até a febre alta tinha passado.
— Porque eu já não me importo. Então tanto faz — disse, sem emoção.

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