Grace era um anjinho. Quando Rogério falou dela para Sandra, Sandra achou que ele tinha sido enfeitiçado por aquela garotinha e perdido o juízo, mas agora ela sentia que o próprio juízo também tinha ido embora.
— Querida, como você pode ser tão fofa?
— Tia, quando formos comer mais tarde, você tem que tomar cuidado para não morder o prego no seu lábio, senão vai doer.
Naquele instante, Sandra compreendeu o sentimento de redenção que fizera Rogério de repente abandonar a vida desregrada.
Até ela estava com vontade de mudar.
Rogério havia feito uma reserva em um restaurante ocidental de alto padrão. Como oferecia grande privacidade, muitas pessoas influentes e famosas gostavam de frequentá-lo.
Logo ao entrar no elevador, Sandra já ficou impressionada com o nível de luxo, sem falar que, ao sair dele, deu de cara com um saguão magnífico, além de portas pesadas e douradas que, ao se abrirem, revelaram um lustre gigante de cristal cintilante.
O som melodioso de um violino preenchia o ambiente. Os clientes que circulavam por lá podiam até não estar com roupas superformais, mas exalavam um luxo discreto. Olhando para si mesma, com o vestido de camelô de dez reais combinando com uma jaqueta de couro cheia de vincos, um cabelo volumoso de cor amarelada e um monte de acessórios baratos...
Nem ela mesma conseguia se encarar.
— Os senhores têm reserva?
A garçonete se aproximou para perguntar enquanto analisava Sandra de cima a baixo, parecendo que queria dizer alguma coisa.
Rogério confirmou a reserva com a garçonete, mas ela hesitou e não se afastou.
— Tem algum problema? — Felipe Costa perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— O nosso restaurante possui algumas exigências em relação ao código de vestimenta dos clientes. Esta senhora... — A garçonete tentou vasculhar a mente em busca de palavras adequadas e, após um bom tempo, acabou perguntando: — Esta senhora está acompanhando vocês?
Se o senhor também a achasse uma vergonha, ele certamente entenderia o dilema da funcionária.
No entanto, Rogério não era tão compreensivo assim e respondeu: — Claro que sim.
— Mas nós... sinto muito, mesmo.
Como Sandra poderia não entender o significado daquele "sinto muito" da garçonete? Ela estava acostumada a transitar por ambientes de todo tipo de gente marginalizada e, na verdade, não se sentia nada à vontade em lugares como aquele.
— O seu restaurante é algum palácio? Nós vamos entrar para ver algum rei, rainha ou imperatriz? Não é só um lugar que vende comida? Desde quando vocês controlam o que os clientes vestem?
Vendo que Rogério estava prestes a armar um barraco, Patrícia rapidamente interveio.
O escândalo que ele estava fazendo em voz alta só transformaria Sandra em motivo de chacota para todos, e, àquela altura, muitos clientes já estavam olhando para eles.
— Vamos comer em outro lugar! — Patrícia disse.
Rogério realmente não tinha medo de arrumar briga; afinal, sempre foi muito cara de pau. Mas, ao notar que a expressão de Sandra não estava normal, ele conteve as palavras que já estavam na ponta da língua.
— Eu nunca mais volto neste restaurante de merda!
Após soltar o xingamento, Rogério puxou Sandra para irem embora.
Mas, nesse momento, um homem de meia-idade que parecia ser o gerente do restaurante apareceu trotando. Ao ver Rogério, curvou-se rapidamente com um sorriso bajulador.

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