Essa frase teve um impacto devastador. Não só confirmava que Grace era filha de Bryan, como também o fez recordar o que ele, como pai, havia feito a Grace nos últimos dias.
— Eu... eu não sabia...
— Vá perguntar para a Rosana primeiro. Pergunte o que ela andou fazendo e, se ainda tiver cara, venha nos procurar! — Após dizer isso, Patrícia abraçou Grace com firmeza e puxou Rogério para fora.
Rogério, ainda inconformado, ergueu o isqueiro provocando Bryan:
— Se tem coragem, bota fogo em mim, covarde!
Isso irritou tanto Patrícia que ela se virou e lhe deu um chute, arrancando o isqueiro de sua mão.
Ao saírem da residência da Família Dias, ambos suspiraram aliviados.
Já era madrugada. Grace havia adormecido no ombro de Patrícia, mas a caminhada até o portão principal era longa, e como Grace era uma menina pesadinha, Patrícia estava tendo dificuldade para carregá-la.
— Carregue ela — gritou para Rogério.
Rogério fez um bico.
— Você me trata como se eu fosse seu empregado.
Apesar de reclamar, ele tirou o casaco encharcado de gasolina, jogou-o fora e pegou Grace dos braços de Patrícia.
A menina resmungou, mas ao ver que era Rogério, voltou a se aninhar tranquilamente em seu ombro.
— Tio.
— Hum.
— Eu sabia que você viria com a mamãe me salvar.
O coração de Rogério derreteu completamente.
— O tio promete que aquele homem mau nunca mais vai te intimidar.
Quando ele se aproximou, o vidro do motorista desceu.
O rosto de Felipe apareceu. Ele primeiro inclinou a cabeça para cumprimentar Patrícia e depois olhou para Rogério e, claro, para Grace em suas costas.
Ele riu.
— Ouvi dizer que você levou um galão de gasolina para a Família Dias, planejando morrer junto com eles?
Essa risada fez um frio percorrer a espinha de Rogério. Ele não tinha medo do céu, da terra, nem dos pais, mas morria de medo de Felipe. Aos olhos dos outros, Felipe era o bom aluno, o exemplo, competente, estável e íntegro, mas não sabiam como ele o atormentava desde a infância.
Por exemplo, aos seis anos, Rogério jogou um gatinho na água para ensiná-lo a nadar. Felipe viu e chutou Rogério para dentro da água, para que aprendesse junto com o gato.
Aos dez anos, Rogério ameaçou fugir de casa para assustar os pais. Felipe enganou-o dizendo que o ajudaria a se esconder, enfiou-o numa van e o largou no meio do mato. Ele vagou por três dias, sobrevivendo à base de insetos, e quando voltou para casa, ainda levou uma surra dos pais.
E aos dezesseis, ele costumava roubar o vinho do avô. Certa vez, roubou uma garrafa, mas de repente todas as bebidas do armário do avô sumiram. A família inteira concluiu que tinha sido ele. Rogério apanhou de todo mundo, até que Felipe apareceu com as bebidas, dizendo que as havia encontrado no quarto de Rogério.

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