O silêncio entre nós ainda vibra no ar quando, de repente, ouvimos passos rápidos vindo do corredor. Eu mal tenho tempo de entender o que está acontecendo quando uma pequena figura aparece correndo como um foguete.
— PAPAI!
Leo surge como um furacão, abraçando a perna de Gabriel com tanta força que quase o desequilibra. Eu dou um pulo para o lado, como se tivesse sido pega fazendo algo ilegal — o que, considerando o beijo de alguns segundos atrás, talvez não esteja muito longe da verdade.
Gabriel pisca algumas vezes, claramente voltando do momento tenso que acabávamos de viver. A expressão dura dele suaviza quase instantaneamente quando olha para o filho.
É estranho ver isso.
O CEO frio desaparece.
No lugar dele surge apenas… um pai.
— Leo — ele diz, colocando a mão na cabeça do menino. — Achei que estivesse com a Sra. Silva.
— Eu estava! — Leo responde, ofegante. — Mas eu queria mostrar uma coisa!
Ele levanta uma folha de papel completamente amassada. Gabriel pega o desenho, observando com uma atenção que eu não esperava. Aproximo-me um pouco, curiosa.
É um dinossauro.
Um dinossauro extremamente torto.
Com quatro olhos.
E o que parece ser… três rabos.
Não consigo evitar.
— Esse dinossauro parece ter passado por uma fase difícil da vida.
Leo me olha, escandalizado.
— Ele está correndo!
— Ah — digo, tentando parecer séria. — Faz sentido. Eu também ficaria assim se tivesse três rabos.
Leo arregala os olhos e começa a rir.
Gabriel me lança um olhar de advertência… mas há um brilho divertido no fundo dos olhos dele.
— Ana Clara.
— O quê? Estou apenas analisando artisticamente.
Leo se vira para mim, animado.
— Ela disse que vai me ensinar a pintar dinossauros!
Gabriel levanta uma sobrancelha.
— Disse?
Cruzo os braços.
— Disse.
— Interessante.
— Por quê?
Ele me observa por um momento longo demais.
— Porque você ainda não começou a trabalhar oficialmente aqui.
— Então considere isso um investimento no desenvolvimento artístico da nova geração.
Leo levanta o desenho como um troféu.
— Eu quero pintar um T-Rex gigante!
— Excelente escolha — digo. — O T-Rex é basicamente um CEO do mundo dos dinossauros.
Leo olha para Gabriel.
— Pai… você é um T-Rex?
Eu coloco a mão na boca para não rir.
Gabriel suspira.
— Acho que fui insultado e promovido ao mesmo tempo.
— Promovido? — pergunto.
— T-Rex é o predador no topo da cadeia alimentar.
Eu engulo em seco, mas levo na esportiva:
— Faz sentido. Você definitivamente tem cara de quem devora concorrentes no café da manhã.
Leo gargalha.
Gabriel me lança um olhar lento, avaliador.
— Cuidado, Ana Clara.
— Com o quê?
Ele dá um pequeno passo na minha direção.
— Predadores também sabem morder.
Meu estômago faz uma pequena pirueta.
Leo, completamente alheio à tensão entre nós, continua tagarelando.
— Ana Clara! A gente pode pintar agora?
Eu me ajoelho na frente dele.
— Claro. Mas primeiro precisamos de tinta.

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