Fico parada alguns segundos depois que ele sai andando como se tivesse acabado de comentar sobre o clima. Meu cérebro ainda tenta processar o que aconteceu.
Ele me beijou.
Não um beijinho educado.
Não um selinho de novela.
Um beijo.
Um beijo de verdade.
Cruzo os braços com força, tentando ignorar o calor absurdo que ainda sinto no rosto.
— Arrogante… — murmuro para mim mesma.
Mas meus pés traidores já estão andando atrás dele.
O corredor parece longo demais agora. Cada passo ecoa no silêncio elegante da casa, e eu tenho a estranha sensação de que estou entrando em território inimigo. Gabriel está alguns passos à frente, caminhando com aquela postura irritantemente segura, como se o mundo inteiro fosse uma empresa e ele fosse o único acionista majoritário.
— Sabe qual é o seu problema? — digo, finalmente alcançando-o.
Ele nem olha para trás.
— Tenho vários. Seja específica.
Reviro os olhos.
— Você acha que pode fazer qualquer coisa.
Agora ele para.
Lentamente.
E se vira.
Há algo no olhar dele que me faz desejar ter ficado quieta… mas só por meio segundo.
— Posso — ele responde com tranquilidade quase ofensiva. — Eu só escolho não fazer.
— Ah, claro. Muito nobre da sua parte.
Dou dois passos para mais perto, apontando um dedo acusador para o peito dele.
— Mas vamos deixar uma coisa bem clara, senhor CEO todo poderoso: você não pode simplesmente sair beijando pessoas quando está irritado.
O olhar dele desce para meu dedo no peito dele.
Depois sobe para meu rosto.
Lento.
Avaliado.
Calculado.
— Posso quando essa pessoa concordou em interpretar minha noiva.
— Interpretar! — retruco. — Não em ser sequestrada romanticamente!
Ele cruza os braços.
— Você está exagerando.
Solto uma risada seca.
— Exagerando? Você praticamente me atacou!
Ele inclina a cabeça, observando-me com aquele ar perigosamente interessado.
— Curioso.
— O quê?
— Você não pareceu tão ofendida assim.
Meu coração tropeça no peito.
— Eu fiquei em choque!
— Não tentou me bater.
— Porque demorei dois segundos para entender o que estava acontecendo!
— Dois segundos é bastante tempo.
— VOCÊ ESTÁ FAZENDO ANÁLISE DE TEMPO DE REAÇÃO?!
Ele respira fundo, como se estivesse tentando manter a paciência.
— Ana Clara…
O modo como ele diz meu nome faz algo estranho acontecer no meu estômago.
Droga.
— Nosso acordo exige que sejamos convincentes.
— Convincente não significa invasivo!
Ele dá um passo na minha direção.
Instintivamente eu recuo.
De novo.
E ele percebe.

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