— Vem, pai! Vem pintar comigo! — Leo grita do corredor, já correndo na direção do quarto de brinquedos como se tivesse acabado de ganhar o melhor presente da vida.
Gabriel olha para mim por um instante, como se estivesse avaliando a situação, depois volta os olhos para o filho.
— Eu preciso trocar de roupa primeiro.
Leo franze o nariz.
— Por quê?
Gabriel olha para o próprio terno escuro impecável, depois para as mãos de Leo, que já estão imaginariamente cobertas de tinta.
— Porque tinta acrílica não combina com um terno que custa mais que seu videogame.
Leo arregala os olhos.
— Sério?
— Muito sério.
O menino parece considerar a informação por dois segundos antes de dar de ombros.
— Então troca rápido!
Ele sai correndo outra vez, desaparecendo pelo corredor com a energia de um foguete.
Gabriel observa a fuga do filho e solta um pequeno suspiro, daqueles que misturam resignação e um certo divertimento silencioso. Depois volta os olhos para mim.
— Cinco minutos.
— Está com medo da tinta? — provoco.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Estou com medo de você.
— Eu?
— Você já demonstrou tendências perigosas para a integridade de roupas caras.
Cruzo os braços, fingindo indignação.
— Eu jamais atacaria um CEO indefeso com tinta.
Ele me olha por um segundo longo demais.
— Eu nunca disse que estava indefeso.
Meu coração faz aquele pequeno salto inconveniente de novo.
Antes que eu responda, ele vira e sobe a escada.
Eu fico parada no corredor, tentando ignorar o fato de que, nos últimos minutos, meu cérebro parece ter esquecido completamente como agir de forma normal perto dele.
Alguns minutos depois, escuto passos descendo a escada.
Levanto os olhos.
E imediatamente me arrependo.
Porque Gabriel Monteiro não está mais usando o uniforme de CEO.
O terno desapareceu.
No lugar dele há uma bermuda escura que termina um pouco acima dos joelhos e uma camiseta cinza simples que se ajusta ao corpo de um jeito muito, muito inconveniente para a minha sanidade mental.
Eu pisco.
Uma vez.
Duas.
Meu cérebro demora alguns segundos para processar a informação de que o homem frio, sempre impecável e inacessível, aparentemente também possui… músculos.
Muitos.
A camiseta marca os ombros largos e o peito forte de um jeito absurdamente injusto para a minha sanidade mental. As mangas curtas revelam braços definidos que definitivamente não pertencem a alguém que passa o dia inteiro apenas assinando contratos.
E a bermuda…
Meu olhar desce um pouco antes que eu consiga impedir.
Pernas fortes.
Bronzeadas.
Oh, ótimo.
Isso é absolutamente necessário para o meu equilíbrio emocional.
Ele percebe.
Claro que percebe.
Gabriel para no último degrau da escada, observando minha expressão com aquele olhar lento, analítico, que parece sempre enxergar mais do que eu gostaria.
— Algum problema, Ana Clara?
Endireito imediatamente a postura.
— Nenhum.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ele dá mais alguns passos na minha direção.
Devagar.
Como se estivesse testando algo.
— Você parece… distraída.
— Não estou distraída.
— Interessante.
Inclino a cabeça.
— Por quê?
Ele chega perto o suficiente para que eu precise levantar um pouco o rosto para encará-lo.
— Porque você está olhando para mim como se estivesse tentando lembrar alguma coisa.
Meu orgulho imediatamente assume o controle da situação.
— Estou tentando entender.
— Entender o quê?
Cruzo os braços.
— Como um CEO que passa o dia em reuniões conseguiu esse… — faço um gesto vago com a mão — …projeto arquitetônico.
Ele quase sorri.
Quase.
— Academia.
— Claro.
— Todos os dias.
— Claro.
— Disciplina.
— Claro.
Ele inclina a cabeça um pouco.
— Você parece decepcionada.

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