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Esposa Temporária:Ele me vê como um nada, mas precisa de mim romance O Impacto

O cheiro de tinta fresca ainda impregna o ar dentro do carro, mas eu mal percebo. Está grudado em mim, nas minhas mãos, nas minhas roupas, na minha vida inteira. Azul ultramar e ocre queimado ainda mancham meus dedos, e as marcas aparecem vivas contra o volante gasto do meu velho Fiat Uno, que range discretamente sempre que faço uma curva mais fechada. Tamborilo os dedos no couro rachado, tentando controlar a ansiedade que lateja no meu peito, mas não adianta.

Nada adianta.

A tela em branco que deixei no cavalete, lá em casa, continua me perseguindo mesmo estando a quilômetros de distância. Consigo vê-la com nitidez na minha mente, aquela superfície silenciosa e quase debochada esperando uma inspiração que simplesmente se recusa a vir. Mais uma tela vazia. Mais uma promessa de dinheiro que nunca chega. Mais uma tentativa desesperada de salvar uma vida que parece escorrer pelos meus dedos.

lho rapidamente para o relógio no painel e meu estômago se revira. 17h30. A entrega dos bolos para a festa infantil deveria ter sido feita há meia hora. Meia hora. Consigo imaginar perfeitamente a cara da cliente, uma socialite conhecida por trocar fornecedores como quem troca de bolsa. Ela provavelmente já está furiosa, andando de um lado para o outro em um salão cheio de balões caros enquanto reclama no telefone sobre “a incompetência da confeiteira”. Perder esse cliente seria péssimo. Mas perdera moradia… isso seria o fim.

A palavra volta a ecoar na minha cabeça como um sino fúnebre: banco. As dívidas médicas se acumulam como montanhas impossíveis de escalar. Cada ligação do hospital parece arrancar um pedaço da minha coragem. Cada boleto é mais pesado que o anterior. O banco não quer saber de histórias tristes, de diagnósticos, de promessas ou de lágrimas. O banco quer dinheiro. E a casa que pagava todo mês direitinho há anos, a única coisa que restou do tempo em que a vida parecia estável, está prestes a desaparecer.

Outra carta de cobrança do aluguel chega. Outra ameaça silenciosa de despejo. Aperto o volante com mais força, sentindo a tensão subir pelos meus braços.

— Eu vou dar um jeito — murmuro para mim mesma, embora não tenha a menor ideia de como.

A chuva começa a cair. Primeiro tímida, como se estivesse testando o terreno. Depois mais insistente. As gotas batem no para-brisa e transformam a rua em um borrão de luzes e reflexos. Os limpadores se movem de um lado para o outro com um rangido irritante, lutando uma batalha perdida contra a água que insiste em se acumular. Acelero um pouco mais, ignorando o limite de velocidade. Eu sei que não deveria, mas o relógio continua correndo e o pânico dentro de mim também. Minha mente está tão cheia de pensamentos que o mundo ao redor parece desaparecer. Penso na conta do hospital. Penso na carta do banco e então tudo acontece rápido demais.

Eu não vejo o semáforo mudar para vermelho. Não vejo o carro parar à minha frente. Não vejo absolutamente nada. Eu só sinto. O impacto explode no ar com um baque seco que faz meu corpo ser empurrado violentamente contra o cinto de segurança. Metal contra metal. Um rangido horrível, como se o mundo estivesse sendo amassado junto com os carros. O Fiat treme inteiro antes de finalmente parar. Por um segundo que parece durar uma eternidade, fico ali parada, tentando entender o que aconteceu.

O silêncio que se segue é estranho. Pesado. Irreal. A chuva continua caindo, agora mais forte, batendo no teto do carro como pequenos martelos. Meu coração dispara tão rápido que sinto o pulso latejar na garganta. Pisco algumas vezes, tentando focar a visão. Olho para frente e vejo a traseira de um SUV preto brilhante. Luxuoso. Caríssimo. E agora com um amassado claro bem no meio.

— Não… — sussurro, levando a mão à testa. — Não, não, não…

Desligo o motor e abro a porta com as mãos tremendo. A chuva fria me atinge imediatamente quando saio do carro. O ar cheira a asfalto molhado, borracha queimada e metal quente. Dou alguns passos até o SUV, já imaginando o tamanho do prejuízo que eu causei. E então a porta do motorista se abre.

O homem que sai parece ter sido desenhado para capas de revista. Alto, postura impecável, terno cinza-chumbo perfeitamente ajustado ao corpo. Os cabelos escuros estão penteados com precisão e o olhar é frio, calculista. Eu reconheço aquele rosto imediatamente, mesmo na chuva. Gabriel Rodrigo Monteiro. O CEO da Monteiro Tech. O tipo de homem que aparece em revistas de negócios falando sobre bilhões e estratégias globais. O tipo de homem que definitivamente não deveria estar sendo atingido pelo meu Fiat Uno velho.

Ele olha primeiro para o carro. Depois para mim.

— Você está bem?

A voz dele é grave, controlada, mas distante, como se estivesse avaliando um problema corporativo em vez de um acidente.

Cruzo os braços, sentindo a irritação subir.

— Eu estou ótima, obrigada por perguntar. Já o seu carro… parece que ele teve um dia ruim.

Ele ignora completamente meu comentário e passa a mão pelo metal amassado. A testa se franze.

— Isso vai custar caro.

Meu estômago afunda.

— Muito caro.

— Eu sinto muito — digo, tentando recuperar um pouco da dignidade. — Eu estava distraída…

— Distraída?

Ele se vira para mim com um olhar afiado.

— Senhorita, dirigir distraída não é desculpa. É irresponsabilidade.

Sinto o sangue ferver.

— Eu sei o que eu fiz! Não preciso de sermão!

— Poderia ter causado algo muito pior.

— Eu tenho problemas, ok?! Problemas de verdade!

Ele ergue uma sobrancelha.

Ele pergunta, os olhos brilhando.

—Sim. Os mais corajosos são os que levantam rápido.

Sinto um olhar pesado sobre mim. Levanto a cabeça e encontro Gabriel parado, a poucos centímetros de distância. Ele não diz nada por um momento. Sua expressão é indecifrável, uma máscara de gelo que parece ter sofrido uma rachadura imperceptível enquanto me via com o filho. Mas a rachadura se fecha rápido demais. Ele estende a mão para Leo, ajudando-o a se levantar, mas seus olhos permanecem fixos nos meus.

— Leo, entre no carro agora.

A voz dele sai mais baixa, mas ainda com aquele tom de comando que me irrita. O menino obedece, lançando-me um último olhar curioso antes de desaparecer atrás da porta pesada. Gabriel se vira para mim, a postura rígida, a chuva escorrendo pelo seu rosto sem que ele sequer pisque.

— Você tem um jeito interessante com crianças, senhorita...

Ele faz uma pausa, esperando que eu complete.

— Ana Clara — digo e limpo a água das minhas mãos na saia já encharcada.

— Pois bem, Ana Clara. Eu não sou um homem que aceita prejuízos por incompetência alheia. Você foi inconsequente. Atravessou um sinal vermelho e destruiu a traseira de um carro que vale mais do que esse seu... — ele olha para o meu Uno com um desdém que me faz querer sumir — ...veículo.

— Eu já pedi desculpas!

Retruco, sentindo a raiva borbulhar novamente.

— Desculpas não pagam a franquia do meu seguro, Ana Clara. E elas certamente não consertam o susto que você deu no meu filho. Você precisa aprender a lidar com as consequências de ser uma inconsequente.

Ele retira um cartão do bolso interno do terno e o estende para mim, e eu faço o mesmo, dou o meu. Seus dedos tocam os meus por um segundo, e eu sinto uma descarga elétrica que me faz recuar.

— Esteja no meu escritório nesta quarta, às nove da manhã. Vamos discutir como você vai pagar por isso. E não pense em fugir. Eu tenho a sua placa e vou acionar meus advogados se você não aparecer.

Ele tira uma foto do meu carro e do dele e então da minha cara de rabo de cavalo toda molhada e entra no SUV sem esperar por uma resposta. O motor ruge e o carro se afasta, deixando-me sozinha na chuva, com um cartão dourado na mão e o peso de uma dívida que eu sei que não posso pagar. O desastre aconteceu, mas o que vem a seguir parece ser muito mais perigoso. Gabriel Monteiro não sabe quem eu sou, mas ele quer que eu pague. E eu não tenho ideia de como vou sair dessa.

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