Ele ri agora, mas o som dura pouco. O riso desaparece quase tão rápido quanto surgiu, como se alguém tivesse apagado a luz dentro dele. O clima muda de forma brusca, quase palpável, e antes que eu perceba ele dá um passo na minha direção.
Instintivamente eu recuo.
Não é um gesto pensado. É reflexo. Meu corpo simplesmente responde à presença dele se aproximando.
O sorriso irônico ainda está nos meus lábios, mas ele começa a morrer quando percebo a mudança no olhar de Gabriel. O homem que estava rindo há segundos desaparece, substituído pelo CEO frio, calculista, que parece medir cada palavra, cada reação, cada movimento meu como se fosse uma peça num tabuleiro.
Ele dá mais um passo.
Eu dou outro para trás.
Até sentir a madeira do aparador encostar na minha lombar, impedindo qualquer nova fuga.
Droga.
Gabriel para bem diante de mim. Perto demais. Alto demais. Intimidante demais.
O cheiro dele chega primeiro — algo caro, limpo, masculino — e isso só piora tudo, porque meu corpo, traidor, decide notar esse detalhe absolutamente inútil num momento como esse.
Ele inclina levemente a cabeça, me observando como se eu fosse um problema interessante.
— Escute com atenção, Ana Clara — diz, a voz baixa, controlada.
Nada de sarcasmo agora.
Nada de humor.
Só aço.
Meu coração acelera, mas levanto o queixo, recusando-me a parecer intimidada, mesmo sentindo exatamente isso.
— Essa história — ele continua — não é para me divertir. Não é para alimentar seu senso de ironia. E definitivamente não é um exercício criativo.
Ele apoia uma mão no aparador ao meu lado, me prendendo ali sem realmente me tocar.
— É estratégia.
O olhar dele desce por um segundo pelo meu rosto, como se avaliasse cada microexpressão.
— E você vai segui-la.
Engulo em seco, mas não respondo.
Ele se inclina um pouco mais, diminuindo ainda mais o espaço entre nós. Sinto o calor do corpo dele agora, a proximidade esmagadora, a presença dominando completamente o ambiente.
— Porque, caso ainda não tenha entendido — a voz dele fica ainda mais baixa —, o sucesso dessa história não é opcional.
Meu estômago aperta.
— Se alguém perceber que isso é uma farsa — ele continua —, você não será apenas uma pintora desconhecida novamente.
Os olhos dele encontram os meus.
Friamente.
Calculadamente.
— Você será a mulher que destruiu a credibilidade do CEO da empresa Monteiro.
Silêncio.
O peso das palavras cai sobre mim como uma pedra.
Ele endireita o corpo, mas não se afasta.
— E eu garanto — acrescenta, quase num sussurro — que você não quer estar nessa posição.
Meu coração b**e forte no peito, mas não abaixo o olhar.
Porque, por mais que ele esteja tentando me intimidar… e esteja conseguindo um pouco… uma parte de mim se recusa a recuar completamente.
Respiro fundo.
— Então talvez — digo, tentando manter a voz firme — você devesse ter escolhido uma atriz melhor.
Por um segundo, algo diferente passa pelo olhar dele.
Não é raiva.
Não exatamente.
Algo mais perigoso.
Algo que faz meu corpo inteiro ficar alerta.
Gabriel aproxima o rosto um pouco mais do meu, tão perto que consigo ver os pequenos tons dourados escondidos no castanho escuro dos olhos dele.
— Talvez — ele murmura.
A pausa é curta, mas carregada.
— Ou talvez… você seja exatamente o tipo de problema que eu gosto de resolver.
E então ele finalmente se afasta.
Mas o espaço que ele deixa parece pequeno demais depois da tempestade que acabou de passar entre nós.
Ele se afasta um passo, como se a conversa tivesse terminado. O ar entre nós ainda parece carregado, denso, como se cada palavra dita tivesse ficado suspensa no ambiente. Eu ainda sinto o eco da presença dele, do calor do corpo que estava perto demais, da maneira como ele ocupou o espaço e, de algum jeito irritante, também ocupou meus pensamentos.
Cruzo os braços, tentando recuperar algum tipo de dignidade depois daquela tentativa descarada de intimidação.
— Que discurso inspirador — digo, com um sorriso ácido. — Deveria colocar isso no manual da empresa. “Como ameaçar sua falsa esposa em três passos simples”.
Ele não responde imediatamente.
Gabriel apenas me observa.
E isso, de algum jeito, é pior.
Aquele olhar analítico dele percorre meu rosto, como se estivesse tentando decifrar alguma coisa. Como se estivesse avaliando se eu sou uma bomba prestes a explodir ou apenas um inconveniente passageiro.
— Você tem um talento impressionante — ele diz finalmente.
— Para quê?
— Para provocar.
Dou de ombros.
— Você facilita.
O canto da boca dele se move de leve. Não chega a ser um sorriso, mas chega perigosamente perto.
Então ele suspira, como quem toma uma decisão.
— Certo.

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