Gabriel surge na sala, vindo de algum lugar que não sei. Seus olhos escuros nos encontram, e por um instante, vejo um lampejo de algo que não consigo identificar. Não é surpresa, nem irritação. Talvez… alívio? Ou apenas a confirmação de que o plano está em andamento. Ele não sorri, mas um leve aceno de cabeça é o suficiente para me fazer sentir que fui reconhecida. Ele observa a cena, a postura rígida, mas seus olhos não desviam de nós. Há uma intensidade em seu olhar que me diz que ele está absorvendo cada detalhe.
— Leo, pelo visto você se lembra da Ana Clara. — a voz de Gabriel é suave, mas com um novo tom, um que eu não tinha ouvido antes. É um tom de quem apresenta uma peça importante de seu mundo. — A moça que cuidou do seu joelho. Ela é a minha namorada agora, e vai morar com a gente.
“Namorada”. A palavra soa estranha, uma etiqueta que não se encaixa na complexidade do nosso acordo. Mas para Leo, é a única explicação que faz sentido. Ele não precisa saber do contrato, da dívida, da farsa. Ele só precisa de uma figura que o conforte, que o faça rir. E, naquele momento, eu sou essa figura. Olho para Gabriel, e ele me devolve um olhar que parece dizer: “Continue o papel”. E eu continuo.
— Namorada do meu pai? Meu pai não namora ninguém. Que bom que é você!
Sorrio. Sim, ele só deve comer as mulheres e depois as dispensa. Afasto os pensamentos e dou-lhe um sorriso genuíno que vem do fundo do coração. A inocência dele é um bálsamo para a minha alma cansada. Eu me abaixo, ficando na altura dele.
— Fico feliz em saber que gosta de mim e adorei sua mochila. Eu também gosto de dinossauros. Meu preferido é o tricerátops, com aqueles três chifres. Qual é o seu?
— O T-Rex! — ele responde, sem hesitar, a voz mais alta e confiante. — Porque ele é o rei!
A barreira do primeiro encontro já havia sido quebrada lá atrás, no asfalto quente, em meio a carros de luxo e discussões acaloradas. Agora, estamos construindo uma ponte sobre o terreno já conquistado. A conexão é instantânea, fácil. Gabriel observa a cena, e desta vez, sua expressão não é indecifrável. É um alívio claro e palpável. O plano dele, por mais louco que parecesse, estava começando a funcionar. A peça mais importante do quebra-cabeça, a aceitação de Leo, havia se encaixado sem esforço.
— Sabe, eu sou artista — digo a Leo, pegando meu pequeno caderno de desenho e um lápis da bolsa. — Eu pinto quadros. E às vezes, eu pinto dinossauros. Quer desenhar um T-Rex comigo?
Os olhos dele brilham. — Sim! Um bem grandão, com dentes afiados!

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