Ela lutou desesperadamente para se soltar e tentou bater em Beto, mas foi inútil.
Tudo o que Hortência vivenciou em um único dia havia virado seu mundo de cabeça para baixo e afundado seu coração no mais profundo abismo.
Um ressentimento avassalador quase a afogou, fazendo seus dentes baterem de ódio.
Tadeu!
Aquele cão ingrato.
Ele não parava de falar em gratidão.
Ele a bajulou para ficar ao seu lado, a persuadiu a cortar laços com a família, dizendo que a amaria para o resto da vida, e agora a abandonava sem hesitação.
A culpa foi dela por acreditar naquele crápula do Tadeu, por isso...
Se não tivesse acreditado nas mentiras de Tadeu, se ainda fosse a nora da família Sampaio... Seu marido anterior não tinha dinheiro, mas fazia tudo o que ela mandava. Como ela teria chegado a este ponto?
Não, não. Ela não queria viver uma vida pobre. A escolha dela não estava errada.
Foi Glaucia. A culpa era toda de Glaucia. Glaucia já havia se divorciado, mas continuava a se envolver com Tadeu, fazendo-o mudar de ideia.
Se Tadeu não tivesse mudado de coração, jamais a teria abandonado. Tudo isso era culpa de Glaucia.
O ódio fez a mente de Hortência ficar cada vez mais clara.
Ela não podia ficar ali. Queria vingança. Faria Glaucia, que roubara tudo dela, pagar o preço.
Sentindo o cheiro repugnante do homem sobre ela e ouvindo sua respiração ofegante, o ódio nos olhos de Hortência quase se materializou. Ela esticou uma mão discretamente em direção a um canto.
Quase. Faltava pouco.
A ponta de seus dedos finalmente tocou algo frio.
Era a ponta de um arpão jogado aleatoriamente no convés.
Beto não devia usar aquele barco velho havia muito tempo e nem se dera ao trabalho de arrumar a bagunça. Isso facilitou para Hortência.
Ela agarrou o arpão gelado com força e, no momento em que Beto estava mais relaxado, usou todas as suas forças para perfurar o pescoço dele.
Sangue.
Sangue vermelho espirrou no rosto de Hortência.
O lixo que a imobilizava arregalou os olhos em choque. A força dele já não conseguia conter Hortência, que o chutou para o lado.
Ela arfava pesadamente. Os olhos de Beto, ao lado, pareciam cuspir fogo:
— Você... você...
Ele perdeu toda a força do corpo. Quando tentou falar, a voz soou como um fole quebrado, incapaz de formar uma frase completa.
Ícaro ainda tinha certa resistência ao Grupo Marques e não queria assumir o controle, mas resolvia os problemas por trás dos panos para ajudar Glaucia, deixando o mérito aparente para ela.
Um mês se passou de forma ordenada.
Isaura acreditou completamente na história sobre Benito Mota e não exigiu mais um encontro imediato com ele.
Como era fim de semana e havia uma pilha de documentos importantes do Grupo Marques precisando da assinatura de Glaucia, ela pensou em aproveitar a oportunidade para levar Sérgio por um dia, para que Benito Mota o visse.
O que mais despertava a curiosidade de Benito Mota recentemente era Sérgio. Ele perguntava sobre o neto várias vezes ao dia, como se tentasse compensar a infância perdida de Glaucia através de Sérgio.
Sérgio também já vira Benito Mota por vídeo junto com Isaura, mas uma tela nunca substituiria um encontro presencial.
O retorno de Glaucia foi apressado. Quando desembarcou, eram apenas quatro da manhã de um sábado.
Ao ligar o celular, deparou-se com uma enxurrada de chamadas perdidas.
Havia ligações de Tatiana Castro, de Hélder, do velho Juvêncio, de Clarinda...
A primeira foi de Isaura, às duas da manhã.
Tantas ligações de tantas pessoas deixaram Glaucia em alerta máximo. Ela previu imediatamente que algo grave havia acontecido.
Nesse momento, Tatiana Castro ligou novamente, desta vez para o celular de Ícaro.

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