Ao encontrar os olhos cheios de cálculos do homem, a inquietação já transparecia no olhar de Hortência.
Apenas a raiva de ter sido abandonada por Tadeu conseguiu, de certa forma, sobrepujar a razão. Hortência disse:
— Seu barco é rápido? Pode me levar logo ao cais?
Ela sabia muito bem que Tadeu havia liquidado vários bens e agora tinha centenas de milhões em mãos. Para ela, era dinheiro que não conseguiria gastar em várias vidas. Não podia perder essa mina de ouro que era Tadeu.
O homem, percebendo que ela mordera a isca, bateu no peito:
— Pode ficar tranquila. Eu, Beto Sampaio, sou um veterano do mar. Você só precisa me dar quinhentos reais e garanto que a levo até lá.
Era um preço razoável, e ele não cobrou um absurdo. Embora Hortência ainda achasse o olhar de Beto um pouco estranho, concordou de imediato, seguindo-o até um barco de madeira um tanto velho e desgastado.
A cabine estava cheia de poeira, indicando que o barco não ia ao mar havia muito tempo.
Se Hortência estivesse um pouco mais calma, teria notado que algo estava errado. Mas, com a mente cheia de pensamentos sobre como armar um escândalo quando encontrasse Tadeu, apenas reclamou um pouco e logo se calou.
O pequeno barco deixou a ilha isolada.
Gradualmente, rumou para o meio do mar.
A navegação não era estável; o barco balançava bastante.
Depois de se afastar uma boa distância da ilha, o motor parou.
Hortência olhou para o mar sem fim ao redor, e o pânico finalmente surgiu em seu rosto. Ela perguntou:
— Por... por que você parou? O que você vai fazer?
Beto riu:
— Ah, você não é tão burra assim. Já que percebeu, vamos conversar direito. Aquele seu homem anterior já a abandonou. De que adianta ir atrás dele? Olhe para mim. Eu ainda não tenho mulher. Que tal ficar e ser minha esposa? Garanto que vou tratá-la bem.
Ele era um velho solteirão.
Na vila, tinha uma péssima reputação.
Sempre que o marido de alguma mulher morria ou alguma garota não conseguia se casar, ele era o primeiro a se aproximar.
Porém, como era preguiçoso e todos na vila conheciam sua laia, ninguém queria contato com ele.
A vontade de arrumar uma esposa para continuar a linhagem da família Sampaio havia se tornado uma obsessão para Beto.
— Ainda pensando naquele seu homem? Ele já te jogou fora. Sra. Pires? Olhe bem para você. Parece mais velha que eu, e sua aparência é bem mediana. Se eu não estivesse desesperado por uma esposa, nem a quereria. Aquela gente da Elite não é idiota. Por que casariam com uma mulher como você? Chega de bravata. As mentiras que eu, Beto Sampaio, já contei nesta vida são mais do que as vezes que você já respirou. Diga logo se topa ou não. Para viver junto, os dois têm que querer. Eu não quero te forçar.
Cada palavra dele a atacava, fazendo-a parecer inútil.
Ouvindo que ele cogitava usar a força, Hortência tremia inteira:
— Você não ousaria, você...
Antes que ela pudesse terminar a frase, Beto puxou seu braço e a prensou no convés:
— Pelo visto, você é teimosa. Terei que ensiná-la a obedecer à força.
A mão dele vasculhou o bolso de Hortência e rapidamente pegou seus cartões bancários e dinheiro, dizendo sem o menor pudor:
— Vamos nos casar logo. Dinheiro não serve para uma mulher. Eu guardo isso por você. Agora vamos ao que interessa. A linhagem da família Sampaio não pode acabar comigo.
Ele tinha muita força e imobilizou Hortência completamente.
Os olhos de Hortência se encheram de pânico, raiva, choque e todo tipo de emoção.

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