O olhar de Ícaro pesou sobre Glaucia com intensidade, e ele disse:
— Glaucia, na verdade, você não precisa depender da Sra. Monteiro. Eu também tenho a minha influência na Cidade G. Se precisar, eu posso...
— Ícaro, você sabe perfeitamente que as minhas maiores preocupações são o Sérgio e a minha mãe. O Sérgio ficaria bem, mas o estado da minha mãe não permite viagens longas. Só deixando-a sob a sua proteção é que eu consigo viajar em paz. Eu sei que você se preocupa, mas eu sei me cuidar. Além disso, com o tio Alexandre e os outros lá, com certeza não correrei perigo. O verdadeiro motivo da minha viagem não pode chegar aos ouvidos da minha mãe. Ícaro, você é o único que pode me ajudar com isso. — retrucou Glaucia.
Ela nunca havia implorado por nada a Ícaro antes. Ouvir aquelas palavras desarmou qualquer intenção de recusa que ele pudesse ter. Mesmo ainda apreensivo, ele assentiu:
— Tudo bem. Farei como você quer. Daqui a pouco te envio os contatos dos meus responsáveis lá na Cidade G. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em procurá-los. Glaucia, se surgir algo complicado, lembre-se de me avisar. Eu resolvo.
A ponta dos dedos dele roçou levemente o canto dos olhos dela, exatamente onde a pele estava avermelhada.
Embora Glaucia já não estivesse chorando, a pele ainda parecia guardar um traço de umidade.
Quanto mais Glaucia se mostrava inabalável, mais o coração de Ícaro apertava.
Ele se culpava por ter voltado tão tarde, por tê-la encontrado tarde demais, permitindo que a vida dela, que deveria ter sido tranquila e próspera, fosse marcada por tantos tormentos.
Incapaz de relaxar completamente, Ícaro organizou um banquete para Alexandre e os outros na véspera da partida de Glaucia da Capital, garantindo que cuidassem dela.
Três dias depois, Glaucia e Clarinda embarcaram no voo para a Cidade G.
O relógio já marcava oito da noite quando o avião aterrissou.
Sabendo da chegada de Glaucia, Palmira havia reservado um restaurante com antecedência para recebê-la.
Glaucia não via Palmira há um bom tempo, e a ocasião pedia que colocassem o papo em dia.
Após deixarem as malas no hotel com Clarinda, Glaucia pegou um táxi e foi ao encontro de Palmira.
Comparada à época em que saiu da Capital, Palmira parecia outra pessoa.
Seu rosto havia ganhado cor, e seu espírito não parecia mais tão aéreo e fragmentado.
Assim que viu Glaucia, ela segurou as mãos da amiga com fervor:
— Eu até disse que voltaria para a Capital para passar o Ano Novo com você daqui a um tempo, e olha só, você chegou na Cidade G primeiro! Glaucia, como você tem passado ultimamente?
Ela fez uma pausa dramática, aguardando a reação da amiga.
— Tadeu. — respondeu Glaucia, friamente.
Tadeu estava ferido, e Napoleão havia fugido na calada da noite para a Cidade G. O fato de procurarem César não era, de forma alguma, uma surpresa para Glaucia.
— Como você sabia? — O rosto de Palmira exibiu um choque genuíno, e ela resmungou: — Glaucia, você é esperta demais. Nem me deixa criar um suspense.
— Na verdade, você tem algo mais a dizer sobre isso, não tem? — provocou Glaucia.
Palmira assentiu vigorosamente:
— Sim. O Tadeu foi trazido pelos pais, o Napoleão e a esposa. Ele estava em um estado crítico e demoraram muito para buscar socorro. O César disse que, no caso dele, a única opção era a amputação. Mas o mais bizarro de tudo é que ele é o único herdeiro da família Pires. Depois de um trauma enorme desses, o Napoleão e a esposa entregaram o Tadeu nas mãos do César e simplesmente desapareceram. Sumiram! Agora, a única pessoa cuidando dele no hospital é aquela velha amante. Você não acha que esses Pires são no mínimo bizarros?
O rosto de Palmira carregava a expressão clássica de quem saboreava uma fofoca de alta sociedade.
Napoleão até poderia ser explicado, mas Vitória? Palmira sabia o quanto aquela mulher idolatrava o filho precioso.

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